SAÚDE: Doenças respiratórias dobraram em Volta Redonda e o culpado pode ser o pó preto da CSN
Poeira maldita


Dayse: “Em longo prazo, poluentes podem
causar estragos”

Se de uns tempos pra cá você, voltarredondense, vem sentindo uma coceirinha chata no nariz, seguida de coriza e muita dificuldade para respirar, pode até sentir-se preocupado, mas jamais solitário. É que nos últimos três meses os casos de doenças respiratórias dobraram na cidade do aço. Só na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Santo Agostinho, por exemplo, 20% dos pacientes atendidos apresentavam o quadro. Pior. O grande vilão tem tudo para ser o famigerado ‘pó preto’ que a CSN lança na atmosfera 24 horas por dia.

Um funcionário da siderúrgica, que preferiu não se identificar, afirmou que durante a noite os bleeders (válvulas de segurança) que controlam as chaminés da Usina Presidente Vargas são abertas de tal modo que o pó escapa com maior intensidade. “Eles fazem isso durante a noite para não levantar suspeitas. Despejam tudo no ar, muito mais do que durante o dia, quando ficaria muito ‘na cara’”, confidencia.

Coincidência ou não, a secretaria de Saúde de Volta Redonda (SMS/VR), registrou um aumento de 100% nos atendimentos por complicações respiratórias em todos os hospitais e postos de saúde do município. Detalhe: justamente depois do dia 21 de junho, a noite mais longa do ano. Caso seja verdade o que o metalúrgico disse – e tem tudo para ser -, a população da cidade do aço respirou naquela noite substâncias como limalha de ferro e substrato de carvão algumas horas a mais do que de costume.

Pior deve ser para quem trabalha dentro da UPV. Foi o caso de Evandro dos Santos Oliveira, morador de Barra Mansa, ex-funcionário de uma empresa terceirizada que atende à CSN. Depois que parou de trabalhar dentro da siderúrgica, diz, sentiu uma melhora considerável de suas alergias. “Minha rinite tem me incomodado muito menos”, resume ele, satisfeito por ter mudado de emprego. “Aquilo estava acabando comigo”, justifica. Mas, ao contrário de Evandro, que mudou de emprego e vive em outra cidade, nem todos têm como fugir da poeirada que a CSN lança todos os dias – e noites, também – sobre as casa e apartamentos da cidade do aço.

Que o diga a universitária Lívia Assis Araújo, 21. “Minha sobrinha de um ano e meio já nasceu com bronquite. Eu tenho rinite, sinusite e bronquite, assim como meus irmãos. Acredito que a poluição liberada pela CSN tenha boa parcela de culpa nessa história”, analisa a estudante, que só consegue alívio para seus problemas respiratórios quando sai da cidade. “Enquanto estou aqui, fico na base de antialérgicos e antibióticos. A rinite me acompanha o tempo todo, mas é justamente por esta época do ano que a bronquite e a sinusite resolvem aparecer com força total”, diz Lívia, nascida e criada em Volta Redonda.

De acordo com a coordenadora de Urgências e Emergências da SMS/VR, Dayse Cunha de Araújo, já era esperado que, nesta época, fosse registrado um aumento na incidência de doenças respiratórias. “Elas têm uma característica sazonal”, afirma, acrescentando que, a seu ver, não há nenhuma relação direta entre a poeirada expelida pelas chaminés da CSN com as enfermidades que acometem os voltarredondenses. “A limalha de ferro não é volátil – ou seja, é mais pesada que o ar. Portanto, vai direto ao chão. Para que causasse doenças, seria necessário um vazamento como o do Golfo do México, mas, ao invés de petróleo, de monóxido de carbono. O que não acontece”, afirma, sem apresentar, entretanto, nenhum estudo que confirme sua tese.

Por um lado, Dayse tem razão. Afinal, até que provem o contrário, não existe nenhum vazamento contínuo das substâncias químicas produzidas pela siderúrgica. Mas é bom lembrar que há pouco mais de um ano (dia 30 de junho de 2009) a cidade do aço levou um susto quando uma sobrepressão no topo do Alto-forno 3 provocou a abertura dos bleeders , que despejaram sobre Volta Redonda, por dois minutos e dezenove segundos, uma quantidade incalculável de pó preto. O incidente acabou por cobrir ruas, calçadas e carros com uma fuligem espessa. “Se pouco mais de dois minutos da poeirada foram suficientes para enegrecer as ruas de boa parte da cidade, imaginem o que o pó preto não faz, a longo prazo, com as vias respiratórias do cidadão voltarredondense?”, indaga uma dona de casa, que mora perto da UPV.

Segundo a epidemiologista da SMS/VR, Ana Valéria Maia, o pó preto expelido pela CSN pode, sim, trazer riscos reais à saúde das pessoas. “As nossas fossas nasais têm um filtro natural (os pelinhos de dentro do nariz, grifo nosso) que retêm as impurezas maiores. Mas, mesmo assim, pode haver coriza e irritações. Caso essas partículas sejam pequenas demais, elas conseguem vencer a barreira das fossas nasais e chegam às vias respiratórias provocando complicações como asma e bronquite. Mas não podemos afirmar que seja o caso do pó preto”, explica Ana, lembrando que Volta Redonda não possui equipamentos técnicos capazes de mensurar o tamanho desses poluentes nem o quanto interfere na incidência de doenças do sistema respiratório.

“Medir e registrar a poluição do ar atmosférico é uma coisa nova tanto pra Volta Redonda quanto para o próprio país. No município não temos nenhum órgão que registre e faça vigilância das substancias poluentes. Por isso, é incipiente determinar que esse poluente dissoluto no ar seja causador dos problemas respiratórios dos voltarredondenses”, argumenta a epidemiologista, deixando claro, porém, que, apesar disso, não se pode eximir a CSN de responsabilidades.

Dayse Cunha concorda: “Em longo prazo, certamente as pessoas estarão mais suscetíveis às doenças respiratórias graças a esse poluente”, dispara. Ana Valéria vai além. Lembra que não se pode ignorar a influência do monóxido de carbono liberado pelos automóveis. “Por conta do movimento intenso nas estradas, o monóxido de carbono é liberado dia e noite”, frisa a epidemiologista, lembrando que o clima frio e seco também deve ser considerado como fator integrante do problema. Como não dá para prender a respiração, resta aos voltarredondenses conviver com a poeirada.

Nota da redação: Como de costume, a reportagem do aQui entrou em contato com a assessoria de imprensa da CSN para que ela pudesse dar esclarecimentos sobre o pó preto, mas, como também é de costume, nenhuma linha – nem mesmo à noite passada - foi repassada ao jornal.

Horas a fio

Ninguém pode negar que o novo Centro de Imagens de Volta Redonda, no Raulino de Oliveira, está mais bonito que o antigo (aquele que ficava no Cais do aterrado, grifo nosso). Mas, como beleza não põe mesa, nem tira radiografias, as inovações não foram suficientes para agradar ao público. Desde que as antigas instalações foram desativadas, as reclamações em relação ao atendimento pioraram. Isso por que, os pacientes esperam horas a fio para conseguir um raio-X do tórax, procedimento que não leva mais de 10 minutos para ser feito.

O funcionário público de 58 anos, Paulo Sérgio Correa, sentiu na pele o problema. Ele chegou ao Centro de Imagem no início da semana, por volta das 15h50m. Foi neste horário que a dor de cabeça começou. “Fiquei aguardando pacientemente durante 2 horas e 40 minutos e nada de me chamarem. Às 17h50min avisei à recepcionista que não poderia ficar, porém voltaria mais tarde”, contou Paulo, salientando que tem uma filha que passa por uma gravidez de risco, por isso teria que buscá-la no trabalho.

Segundo Paulo, ele demorou cerca de 10 minutos na rua. Quando regressou ao Centro de Imagens, a recepcionista lhe jogou um balde de água fria. “Eu voltei às 18 horas e a recepcionista me avisou que já tinham chamado meu nome e, portanto, teria que aguardar”, lembrou, completando: “Eu pensei que seria chamado novamente assim que o último paciente fosse atendido, mas para minha surpresa isso não aconteceu”.

Ainda de acordo com o funcionário público, a espera se alongou por praticamente mais uma hora enquanto via outras pessoas, que chegaram depois dele, serem atendidas, deixando-o furioso. “Eles passaram todo mundo na minha frente. Parecia que queriam me punir por ter saído e prestado ajuda à minha filha”, disse, afirmando que às 18hs50min resolveu voltar para casa. “Eu não aguentava mais esperar, então decidir largar tudo de lado e ir embora.

Paulo procurou a reportagem do aQui e deixou um recado para o prefeito Neto. “Gostaria de dizer ao Neto que o Centro de Imagens esta lindo mas não é funcional. Tanta beleza não resolve; o que resolve é trabalhar com amor como eu trabalhei durante 28 anos. Gostaria muito que houvesse mudanças. Sei que o senhor está buscando o melhor para a população de VR, mas precisa ver essa parte do RX que não funciona como deveria”, lamentou.

O problema não deve ser privilégio de Paulo. Duas outras mulheres, que preferiram não se identificar por trabalharem em outro departamento público, próximo ao Centro de Imagens, também reclamaram da demora para serem atendidas. “Eu vejo a fila só aumentando enquanto os pacientes esperam uma eternidade para serem atendidos. É um absurdo”, comentou uma delas enquanto a amiga completava: Eu mesma já fiquei plantada na fila por muitas horas.

Eles realmente demoram muito para atender. Não sei se por terem poucos funcionários ou se enrolam mesmo”, riu.
Mas a gerente administrativa do Centro de Imagens, Vanda Capaldo, se defende. Segundo ela, a culpa de tanta demora é dos próprios pacientes. “Os exames são feitos com agendamento, ou seja, hora marcada. Os pacientes são orientados a chegarem ao local com apenas meia hora de antecedência, entretanto a maioria chega horas antes do atendimento. Por isso a demora”, justificou Vanda, informando ainda que já teve casos de um paciente, com hora marcada para o turno da tarde, chegar na parte da manhã. “Por isso ele ficou esperando tanto. Além do mais, há técnicos suficientes para atenderem a demanda”, finalizou.


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