ESPECIAL: Secretaria de Serviços Públicos pede ajuda da população para ‘organizar’ cemitério
Solução emergencial


Wanderley e Maurício: “A população precisa se responsabilizar”

Em sua edição de n.º 695, o aQui mostrou que o Cemitério Municipal Bom Jardim, em Volta Redonda, estava parecendo um verdadeiro cenário de filme de terror: túmulos abertos com caixões à mostra; ossário destrancado, com ossos humanos à disposição de cachorros e praticantes de magia negra; caixas d’água cheias e destampadas, à mercê dos mosquitos da Dengue e, para piorar, a suspeita de que o necrochorume – líquido tóxico expelido pelos corpos em decomposição – poderia estar contaminando o lençol freático local, colocando em risco as pessoas que moram próximo ao cemitério.

A reportagem causou calafrios em muita gente. E gerou uma reação imediata da prefeitura de Volta Redonda, que se comprometeu a tomar providências para que cenas como as registradas pelo aQui não se repitam mais. A informação foi dada pelo coordenador da secretaria de Serviços Públicos, Wanderley Domingos, que na manhã de quarta, 21, marcou um encontro com a equipe do aQui no próprio cemitério, a fim de esclarecer algumas coisas. Ao lado do administrador do local, Maurício Pio Chaves, Wanderley fez questão de frisar o esforço do Poder Público em promover melhorias na necrópole, que com seus cerca de 630 mil metros quadrados de extensão é considerado o maior do Sul Fluminense.

“Muita gente se lembra que há 20 anos a situação era bem pior. Agora, estamos melhorando a estrutura. Será construído um muro de 1,8 km ao redor do cemitério, o que, esperamos, evitará que vândalos continuem abrindo o ossário, por exemplo, conforme o aQui mostrou na reportagem”, adiantou Wanderley, acrescentando que uma das medidas a serem tomadas pela secretaria de Serviços Públicos é pleitear junto ao prefeito Neto a aquisição de um incinerador de ossos.

“Aqueles ossos que vocês viram são de mais de 30 anos. São de pessoas que foram sepultadas nas gavetas públicas e cujas famílias não reclamaram os restos mortais”, justificou o coordenador, certo de que com um incinerador será mais fácil manter o local organizado. “Os ossos que não forem reclamados pelas famílias serão incinerados e se transformarão em cinzas, que ocupam menos espaço”, completou. O administrador do cemitério, Maurício, corrobora a informação de Wanderley. E acrescenta que o ossário, via de regra, permanece fechado. “A gente colocou um arame lá, mas os vândalos entram, abrem, mexem naquilo tudo. Vamos colocar um cadeado para evitar que o que vocês fotografaram aconteça novamente”, prometeu.

Ainda de acordo com Wanderley, uma das grandes dificuldades encontradas pela administração do cemitério é manter tudo bem organizado. Afinal, lembra, além de grande, o cemitério carrega em seu seio nada menos que 65.500 cadáveres. “Com esta reforma pela qual o cemitério está passando, teremos um local apropriado para acondicionar os sacos de exumação – um depósito”, revela Wanderley, afirmando que todas as embalagens serão adequadamente identificadas e, portanto, facilmente localizadas. “O problema é que muitas famílias não reclamam os restos mortais de seus parentes, que só podem permanecer cerca de três anos e meio nas gavetas públicas. Assim, temos que fazer a exumação e guardar ossos, e não temos espaço para tanto”, argumenta.

Outro problema apontado por Wanderley refere-se ao total abandono em que se encontram os jazigos perpétuos. “Os jazigos são de propriedade de quem os comprou, não da prefeitura. Portanto, a limpeza e a manutenção ficam sob responsabilidade da família. O Poder Público só pode se responsabilizar pelas gavetas públicas”, lembra, acrescentando que os funcionários do cemitério não podem, até por força de lei, tomar a iniciativa de consertar os túmulos quebrados. “Às vezes a gente até coloca umas placas de cimento em cima desses túmulos, para evitar que os visitantes se choquem”, admite Maurício. “O abandono aqui é muito grande. Há sepulturas que estão largadas há mais de 30 anos. Muitos dos que criticam o estado do cemitério têm jazigos aqui, mas não cuidam deles. Somem por anos, deixam tudo largado e, quando aparecem, querem que o túmulo esteja bonitinho, arrumadinho”, critica Wanderley. Maurício completa: “Muito desse abandono é falta de sentimento e consideração das próprias famílias para com seus mortos”.

Em relação às caixas d’água, Maurício esclarece que, embora incômodas para quem visita o local, elas são necessárias. “A água dali não é potável. É utilizada para limpar túmulos e fazer massa. De dez em dez dias os funcionários da prefeitura vêm e fazem a limpeza nas caixas, justamente para evitar a Dengue”, afirma, lembrando que uma das dificuldades encontradas por ele é evitar que as crianças que moram na vizinhança invadam o local. “No verão, muitas crianças que vivem nas áreas de posse ao redor do cemitério tomam banho dentro dessas caixas, como se fossem piscinas. O cemitério é público, não temos como proibir isso, nem monitorar o tempo todo. Assim como não temos como proibir que se façam despachos de macumba aqui dentro”, argumenta, avisando, aliás, que todas as áreas não ocupadas ao redor do cemitério serão arborizadas para evitar novas invasões.

Com a reforma pela qual o Cemitério Bom Jardim está passando, diz Wanderley Domingos, a população poderá contar com capelas confortáveis e seguras. Aquele papo de gente sendo assaltada durante os velórios, por exemplo, será coisa do passado dentro em breve. “Instalamos câmeras de segurança que estão interligadas com a Polícia Militar e a Guarda Municipal, pois queremos dar segurança ao contribuinte. Os velórios poderão ser realizados aqui, o que desafogará um pouco as capelas mortuárias do Aterrado”, revelou, informando, ainda, que já foi solicitada à prefeitura a aquisição de lixeiras para serem espalhadas pelo cemitério.

“Temos alguns tambores para recolher o lixo, mas é necessário colocar essas lixeiras amarelinhas em locais estratégicos”, afirmou, acrescentando que outra novidade a ser entregue à população é um ‘descensor de caixões’, que aposentará de vez os vergalhões que descem os caixões às sepulturas. “O cemitério reformado será entregue à população até o final de agosto. Esta é a previsão. Muitas novidades virão por aí”, disse Wanderley, com ar misterioso.

Contra necrochume? Cal
Um dos pontos abordados pelo aQui na edição passada refere-se à possível contaminação do lençol freático pelo necrochorume. Em relação a isso, Wanderley ressalta que não é um problema exclusivo do cemitério voltarredondense, mas de todos os cemitérios do país que tenham entrado em funcionamento antes de 2003, quando o Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama) instituiu a resolução n.º 335/2003, normatizando o licenciamento ambiental de cemitérios. “Todo cemitério antigo passa por esse problema. No caso do de Volta Redonda, que é grande e está em funcionamento desde 1956, a situação é ainda mais complicada. Não podemos ignorar o que prevê a legislação, mas não temos uma solução imediata para o problema”, pondera.

Em curto prazo, segundo Wanderley, uma medida que poderia minimizar o vazamento de necrochorume para o solo seria o uso de produtos químicos – dentro das sepulturas e caixões – que absorvam o líquido cadavérico. “O cal é um desses produtos. Ele absorve o líquido e evita que contamine a terra”, destaca. Maurício concorda, e revela que o produto é utilizado como medida preventiva em todas as gavetas públicas do cemitério. “Gastamos por mês, em média, 200 sacos de cal para segurar um pouco o necrochorume e neutralizar seus efeitos. Quando há um sepultamento, abrimos a gaveta e despejamos um saco de cal”, revelou, informando, porém, que a mesma medida não pode ser tomada quando o sepultamento é feito em jazigos perpétuos.

“Antigamente, quando havia um enterro, levávamos uma caixa de cal e uma pá, para que os próprios parentes, ao se despedirem do falecido, fizessem isso. Era da nossa cultura e tinha um por quê, mas hoje em dia ninguém quer fazer esse tipo de coisa”, pontua o administrador do Cemitério Bom Jardim, salientando que não são poucos os voltarredondenses que se recusam a adotar a prática.“Não podemos obrigá-los a colocar cal nos jazigos que são de sua propriedade. Mas nada impede que, uma vez conscientizada da importância desta prática, a própria família do morto traga um saco de cal para colocar na sepultura”, completou Maurício.

Justamente para aproximar a administração do cemitério e a população – que deve ser chamada à responsabilidade, caso possua um jazigo perpétuo no local –, a secretaria de Serviços Públicos promoveu a informatização dos arquivos do Cemitério Municipal Bom Jardim. “Informatizamos tudo, estamos atualizando os dados e pedimos à população que faça o recadastramento de sepulturas. Estamos pensando em mandar correspondências aos proprietários dos jazigos para que tomem providências. Fazemos o nosso possível, mas dependemos da população para melhorar. Sozinhos, não vamos a lugar algum”, finalizou Wanderley Domingos.

Com tudo em cima
Como o Cemitério Municipal Bom Jardim já tem 54 anos, é praticamente impossível – pelo menos até prova em contrário – adequá-lo completamente ao que prevê a recente legislação. Não é o caso, porém, de outro cemitério da cidade do aço: o Portal da Saudade, uma necrópole particular que está em funcionamento desde 1991. De acordo com as informações repassadas ao aQui pela administração do Portal da Saudade, o local tem hoje 11.607 sepultados, ocupando 7.931 jazigos com dois compartimentos, cada. Com espaço de sobra para uma ampliação, o cemitério suporta a construção de aproximadamente 20 mil jazigos perpétuos.

E, ao contrário do Cemitério Bom Jardim – que cresceu desordenadamente, não vende mais jazigos e tem apenas mais cinco anos de vida útil, considerando o uso único das 5 mil gavetas públicas disponíveis –, o Portal da Saudade é todo planejado e tem pelo menos mais 20 anos de vida útil pela frente. “Porém, ainda existem outras áreas a serem expandidas. Desta forma, não podemos prever um tempo exato”, pondera a administração do cemitério, acrescentando que a taxa de ocupação dos jazigos está em 39%. “Estimamos mais de 30 mil sepultamentos, sem considerar que o jazigo é de uso perpétuo, ou seja, reutilizado pela família após o prazo de exumação”, completa.

Ainda segundo as informações do Portal da Saudade, o cemitério é um dos únicos do estado do Rio a possuir licença ambiental. “O cemitério está adequado às resoluções do Conama n.º 335, 368 e 402, atendendo às exigências ambientais, sendo que esta última resolução prevê prazo de até dezembro de 2010 para a adequação de cemitérios anteriores a abril de 2003”, afirma, garantindo que o tratamento de resíduos orgânicos e inorgânicos do local está de acordo com as normas legais. “Toda vez que projetamos um novo jardim/quadra, fazemos um estudo detalhado da topografia da área, bem como análise de sondagem à percussão de solo, obedecendo à permeabilidade do solo”, explica.

A análise, segundo o Portal da Saudade, estuda as camadas do solo e sua resistência, verificando a localização de possíveis lençóis freáticos. “Não ocorrendo a observância de água, a área é liberada para a construção de sepulturas. Também temos implantado o projeto de vazões pluviométricas, que permite destino adequado às águas de chuvas, evitando erosões e alagamentos”, acrescenta, frisando que o problema do necrochorume – que atinge nove em dez cemitérios brasileiros – dificilmente atingirá o cemitério. “Em nenhuma de nossas áreas sepultáveis foi localizada a presença de água. Temos poços de monitoramento para análise periódica e vale considerar, também, que o Portal da Saudade fica em uma área de considerável altitude, em local distante de unidades residenciais”, destaca. “Buscamos a excelência no atendimento ao enlutado. Nosso objetivo é trazer às famílias uma mensagem de tranqüilidade e paz num momento tão difícil, oferecendo um ambiente totalmente arborizado e harmônico”, finalizam os administradores.


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