CULTURA:
Artistas de Volta Redonda continuam contra Moa,
que se defende
Tudo às claras
Moa: “Estou pensando em processar essas pessoas
que espalham inverdades”
Desde o início do ano passado, o secretário de Cultura
de Volta Redonda, Moacir de Castro Filho, o Moa, tem enfrentado um constante
desassossego, causado, dentre outras, pelas inúmeras reclamações
sobre sua administração. Em fevereiro de 2009, às
vésperas do Carnaval, o prefeito Neto chegou a reunir a classe
artística para conversar sobre o assunto. No Estádio Raulino
de Oliveira, onde aconteceu o encontro, Neto disse de forma bem contundente,
na frente de um Moa constrangido e cabisbaixo e de uma plateia formada
por artistas dos mais variados segmentos, que se a secretaria de Cultura
(SMC) não funcionasse direito, cabeças rolariam. E a primeira
delas, deixou claro, seria justamente a de Moa.
Passado pouco mais de um ano desde aquela reunião, pouca coisa
parece ter mudado. Tanto que Moa permanece no cargo, intocável
e coberto de elogios pelo sucesso do projeto ‘Cultura Para Todos’.
Mas pode ser que isso mude, caso o Ministério Público
Estadual – que recebeu, só no início deste mês,
nada menos que três denúncias contra o secretário
de Cultura – decida processá-lo. As denúncias, às
quais o aQui teve acesso, foram protocoladas no MP pelo Movimento Ética
na Política (MEP), pelo Partido do Socialismo e Liberdade (PSOL)
e por uma outra pessoa que, temendo represálias, preferiu o anonimato.
Dentre as denúncias entregues ao MP estão a de um suposto
superfaturamento na contratação de shows no ‘Cultura
Para Todos’; o pagamento via RPA (Recibo de Pagamento de Autônomo)
para artistas locais com irregularidades como valores falsos e atrasos
nos pagamentos; a contratação irregular de segurança
para eventos na Ilha São João; a contratação
de atores, atrizes e diretores sem registro profissional para apresentações
em projetos culturais e, principalmente, o suposto agenciamento, por
Moa, do grupo musical ‘Zéperê’, que teria recebido
verba da Lei de Incentivo à Cultura e que chegou a ser indicado
pela SMC para participar do projeto ‘Novas Cenas’, da secretaria
Estadual de Cultura.
Em entrevista ao aQui,o integrante do setor de Comunicação
e Cultura do PSOL, o ator voltarredondense Carlos Eduardo Giglio, explicou
que as denúncias – encaminhadas ao Ministério Público
pelo presidente do partido em Volta Redonda, Marcos Aurélio Ramalho
Gandra – têm por objetivo fazer com que a Justiça
investigue os passos de Moa. “Temos recebidos diversas denúncias
a respeito e acompanhamos a briga dos artistas com o secretário
de Cultura desde o ano passado. Não podíamos nos furtar
de defender os direitos dos trabalhadores”, explicou Giglio, lembrando
que desde a reunião que Neto teve com a classe artística,
em fevereiro de 2009, muitas coisas aconteceram, mas nada que, segundo
ele, desse fim ao problema.
Moa, o ‘ausente’
“Desde aquela reunião, surgiram muitas denúncias
na comunidade de Volta Redonda no Orkut e muita gente pedindo a cabeça
do secretário”, conta Giglio, acrescentando que as irregularidades
apontadas pelos artistas ao prefeito Neto, quando da reunião
no Estádio, continuaram acontecendo. “Nada foi feito por
parte do Poder Público. Então, realizamos a I Conferência
Municipal de Cultura, em novembro de 2009, e, em vez de pedirmos a cabeça
do Moa, achamos que seria melhor discutir políticas culturais
para nossa cidade”, relata. Segundo ele, Moa não queria
realizar a conferência justamente por estar temeroso de que o
encontro pusesse em risco seu cargo como secretário de Cultura.
“O resultado disso é que a conferência aconteceu,
mas o Moa foi e não participou. Os artistas se organizaram e,
durante o evento, aprovamos várias propostas – até
hoje, nenhuma foi implementada”, continua Giglio, contando que
em resposta à conferência, a secretaria de Cultura passou
a realizar grandes eventos, como o ‘Cultura Para Todos’
que, ao menos teoricamente, busca valorizar a mão de obra artística
da cidade do aço. “Alguns artistas da cidade, que estavam
sem receber desde o governo Gotardo, receberam o que lhes era devido
– outros, não. Alguns artistas conseguiram participar de
projetos da prefeitura, mas isso ainda é muito pouco perto do
que foi traçado na Conferência Municipal”, afirma
Giglio, referindo-se, dentre outras, à reformulação
do Conselho Municipal de Cultura e à criação de
um Orçamento Participativo para o setor.
Só que de novembro para cá, segundo Giglio, as reclamações
contra Moa aumentaram consideravelmente. Viraram coisa séria.
Tanto que culminaram nas denúncias encaminhadas ao Ministério
Público. “É preciso dizer que, embora não
tenhamos provas, acreditamos que as denúncias que recebemos não
são infundadas”, frisa, acrescentando que todas foram feitas
por outros artistas, de forma anônima. “Eles não
quiseram se identificar por medo de represálias. Sabemos de casos
de artistas daqui de Volta Redonda que reclamaram e nunca mais conseguiram
trabalho”, completa Giglio, certo de que o Ministério Público
aceitará as denúncias, fará uma investigação
e encontrará muitas coisas ‘estranhas’ na secretaria
de Cultura. “Estamos confiantes de que o processo contra o Moa
será aberto pelo MP”, finalizou.
Moa, o ‘empresário’
Toda a recente crise envolvendo Moa teve início quando o jornalista
Cláudio Alcântara – editor de um site cultural de
Volta Redonda –, resolveu fazer uma reportagem sobre a banda voltarredondense
‘Zéperê’, convidada pela secretaria de Cultura
de Volta Redonda para participar do projeto ‘Novas Cenas’,
da secretaria de Estado de Cultura, no Rio. Quando foi entrar em contato
com o grupo musical, teve uma baita surpresa. Descobriu que o empresário
da banda era o secretário de Cultura de Volta Redonda, Moacir
de Castro Filho, o Moa.
De acordo com Cláudio Alcântara, a prova do agenciamento
estava no site oficial do grupo. Ao clicar em ‘Fale Conosco’,
o jornalista percebeu que os números de Nextel e celular que
constavam na página eram de Moa. Meio sem acreditar no que via,
o jornalista relata que ligou para os números e suas suspeitas
foram confirmadas, já que foi atendido pelo próprio secretário
de Cultura. A descoberta de Cláudio virou uma reportagem publicada
no site www.claudioalcantara.com e botou meio mundo artístico
(e político) de Volta Redonda de cabelos em pé. Tão
logo a notícia chegou aos ouvidos do PSOL e do MEP, ambas as
entidades protocolaram documentos denunciando o caso ao Ministério
Público e citando outros, inclusive os publicados pelo aQui ao
longo de 2009.
Tem mais. Ainda segundo Cláudio Alcântara, assim que
a reportagem sobre Moa foi publicada na internet, a banda ‘Zéperê’
tratou de tirar do ar os números de contato do secretário
de Cultura, que, inclusive, agendaria shows para o grupo. Mas o jornalista
não parou por aí. E divulgou que, coincidentemente (ou
não), o grupo agenciado por Moa teria sido convidado pela secretaria
de Cultura de Volta Redonda para participar do projeto ‘Novas
Cenas’, promovido pela secretaria de Estado de Cultura, além
de ter participado, no ano passado, da festa ‘Dia das Crianças’,
no Cine 9 de Abril, como parte do ‘Cultura Para Todos Especial’.
Isso sem falar que o CD do grupo, intitulado ‘Cantando e Brincando
de Roda’, teria sido gravado com o dinheiro da Lei de Incentivo
à Cultura, através da secretaria de Cultura de Volta Redonda.
O Movimento Ética na Política de Volta Redonda (MEP-VR),
ao tomar conhecimento da informação divulgada pelo jornalista
Cláudio Alcântara, protocolou no Ministério Público
um pedido para que sejam apurados os indícios de participação
de Moa no agenciamento do grupo musical ‘Zéperê’.
No documento, assinado pelo coordenador-geral da entidade, Luiz Henrique
de Castro Silva, fica claro que para o MEP a situação
é “seriíssima sob o prisma da ética”
e, por isso, a entidade entende ser fundamental “uma avaliação
criteriosa do fato, por se tratar de indícios de favorecimento
a pessoa/grupos na coisa pública”.
Procurado pelo aQui, o Ministério Público Estadual confirmou
o recebimento das denúncias e informou que o caso está
sendo avaliado por uma promotora, que, após o levantamento das
informações, decidirá se abrirá ou não
uma ação judicial contra o secretário de Cultura.
Inquérito policial contra Moa já
foi entregue ao MP
Uma das denúncias contra Moa, feitas ao Ministério Público
Estadual pelo PSOL, já havia sido tema de duas reportagens do
aQui, em junho de 2009. Nas edições n.° 638 e 639,
o aQui mostrou que o secretário de Cultura, Moacir de Castro
Filho, o Moa, tinha se envolvido numa tremenda confusão por causa
da Expo-VR, realizada na Ilha São João. Na época,
Moa teria contratado uma ‘empresa’ de segurança inexistente,
conforme atestou a Polícia Federal que, na ocasião, exigiu
que os 250 seguranças da festa – policiais militares, em
sua maioria – fossem dispensados do serviço. O então
delegado titular da PF em Volta Redonda, Alexandre Saraiva, chegou a
dizer, inclusive, que a equipe responsável pela segurança
da festa não estava habilitada.
Outro agravante no caso, conforme o aQui mostrou,
é que dentre os ‘seguranças’ da Expo-VR estaria
uma menor, de 17 anos, o que levou a Polícia Federal a encaminhar
ofícios para o Ministério Público comunicando a
irregularidade da segurança e a presença da adolescente.
Um investigador da PF, ouvido pelo aQui na época, esclareceu
que o correto seria a prefeitura ter aberto uma licitação
para contratar uma firma de segurança reconhecida e registrada
na Polícia Federal, o que, segundo ele, não aconteceu.
Depois da diligência dos agentes federais na Ilha São
João, a PF abriu um procedimento administrativo para investigar
a participação de todos os envolvidos na confusão,
incluindo os 250 seguranças e, principalmente, o secretário
de Cultura. Tem mais. Ainda em junho, uma fonte do aQui, com trânsito
na 93ª Delegacia de Polícia de Volta Redonda, garantiu que
a Polícia Civil investigaria as denúncias de falhas na
segurança da Expo-VR.
Ainda naquele mês, o delegado adjunto da 93ª DP, Michel
Floroschk, disse ao aQui que havia instaurado uma sindicância
para apurar todas as irregularidades ocorridas durante a festa, incluindo
possíveis excessos e omissões do esquema de segurança
da Expo. Floroschk afirmou, também, que a Polícia investigaria
as responsabilidades da SMC no caso. “Vamos apurar o amadorismo
inaceitável da secretaria de Cultura ao contratar uma empresa
sem as mínimas condições técnicas, econômicas
e legais para realizar o serviço de segurança”,
prometeu o delegado, lembrando que a SMC poderia ser responsabilizada
pelos crimes ocorridos dentro da Ilha São João, durante
a festa – ao todo, foram registradas mais de 20 ocorrências
na 93ª DP durante os quatro dias do evento, incluindo agressões,
tentativa de homicídio e furtos.
“Os organizadores do evento poderão ser responsabilizados
pela sua omissão na segurança, por terem criado um risco
de ocorrência dos resultados. A população, quando
vai a um show público, acredita que estará segura. E não
foi o que ocorreu”, justificou Michel Floroschk, frisando que
a prefeitura, através da SMC, tinha o dever de impedir as ocorrências
criminais contratando uma empresa de segurança regularizada e
preparada. Ainda naquele mês, o inquérito foi instaurado
pela Polícia Civil e, segundo informações obtidas
na 93ª DP, já foi relatado ao Ministério Público
Estadual.
Moa nega acusações e diz que nunca foi cobrado
pelo Sated/RJ
As denúncias contra o ‘empresário’ Moa chegaram
a ser publicadas no Diário do Vale e o aQui
decidiu entrar em contato com a assessoria de imprensa da prefeitura
de Volta Redonda para saber o que o secretário de Cultura teria
a dizer em sua defesa. Por e-mail, Moa rebateu todas as denúncias
envolvendo seu nome. No texto, ele diz, entre outras, que não
existe superfaturamento nos eventos promovidos pela SMC. “No caso
do projeto ‘Cultura Para Todos’, a situação,
inclusive, é extremamente econômica para o município,
já que os valores são fechados para uma apresentação
por duas sessões com cada artista. Portanto, a denúncia
não procede”, argumentou o secretário, que, para
comprovar o que diz, enviou ao aQui uma lista com todas
as atrações do projeto até a data atual, incluindo
os valores pagos pela SMC a cada uma (ver quadro).
Em relação ao pagamento em RPA para artistas locais com
supostas irregularidades como valores falsos e atrasos nos pagamentos,
Moa foi detalhista. Ele deixa claro, por exemplo, que o artista, ao
acertar sua apresentação com a SMC, assina um Termo de
Prestação de Serviço padrão, contendo os
valores líquido e bruto com vias para as duas partes. “Os
descontos, portanto, são amparados por lei e debitados em conta.
Tais descontos são: INSS, Imposto de Renda e ISS, sempre com
tabelas diferenciadas para cada caso”, explica. Quanto aos supostos
atrasos de pagamento, Moa diz que a secretaria de Fazenda (SMF) garante
que todos os pagamentos estão em dia. “Qualquer coisa contrária,
peço que entrem em contato conosco para averiguarmos. Mas no
momento, repito, não existem atrasos de pagamento, conforme informações
da SMF”, frisou.
O secretário de Cultura surpreendeu, contudo, ao falar sobre
a contratação irregular de segurança para eventos
na Ilha São João. E admitiu que o único caso desta
natureza ocorreu na Expo-VR de 2009, conforme publicado pelo aQui. “Quanto
tomamos conhecimento que a empresa contratada estava irregular para
a prestação de tal serviço, substituímos
de imediato a segurança no local por homens da Guarda Municipal”,
justificou Moa, negando, porém, que tenha sido registrado qualquer
incidente no evento. Há controvérsias.
Moa também falou acerca das acusações de não
contratar atores, atrizes e diretores teatrais sem registro profissional.
E foi incisivo ao dizer que o próprio Sindicato dos Artistas
e Técnicos em Espetáculos de Diversões (Sated/RJ)
– representado em Volta Redonda pelo ator Lúcio Roriz –
jamais cobrou esta prática. “Cabe ao sindicato da categoria
fiscalizar. Nós, da SMC, nunca fomos questionados nesse sentindo,
em 12 anos de ‘Palco Sobre Rodas’. Mas é claro que
estamos abertos para ouvir todos da classe artística e primar
sempre pelo trabalho com correção”, disse.
Sobre o estopim de toda a reclamação da classe artística
voltarredondense – o suposto agenciamento do grupo ‘Zéperê’
– Moa foi direto. Afirmou, entre outras, que qualquer denúncia
de agenciamento ou favorecimento para o ‘Zéperê’
ou qualquer outro grupo é “mentirosa”. “Aliás,
já estou estudando processar judicialmente algumas pessoas que
insistem em espalhar inverdades. Para qualquer esclarecimento adicional,
peço que liguem para minha secretária, que ela passará
o telefone do proprietário e empresário do grupo, José
Waldemar”, disparou Moa, acrescentando que o grupo, de fato, foi
agraciado pela Lei de Incentivo à Cultura, em 2008. “O
detalhe é que alguns não sabem que a seleção
dos projetos não é feita pela SMC, e sim pelo Conselho
Municipal de Cultura, órgão independente do Poder Executivo”,
completou.
Tem mais. Em relação ao projeto ‘Novas Cenas’,
elaborado pelo Governo do Estado, Moa diz que houve uma parceria entre
a secretaria de Estado de Cultura e a SMC, quando foi solicitada a indicação
de duas peças teatrais adultas, uma infantil e, ainda, um musical
infantil. “Nesse caso, a SMC fez as indicações e
o município não teve qualquer despesa. Tanto que os artistas
sequer foram remunerados”, finalizou Moa, certo de que sua cabeça
– pelo menos por enquanto – está a salvo.

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