CIDADE:
Prefeitura de Volta Redonda lança
concurso público para Áreas de Saúde
Que mancada!
Julio: “O salário
é imoral”
Três meses após a polêmica em torno do edital do
concurso público de Barra Mansa - quando a prefeitura ofereceu
uma remuneração igual – de R$ 510,00 – para
todos os cargos, independente de nível de escolaridade - chegou
a vez dos voltarredondenses chiarem, e com razão, do concurso
público para as áreas de Saúde e Ação
Social do município. Desde a publicação do edital,
no final de fevereiro, a chiadeira é contra os salários
oferecidos.
Um médico, por exemplo, aprovado no concurso público,
receberá R$ 717,39 por uma jornada mensal de 120 horas. Não
chega nem a R$ 6,00 a hora. Mais desanimador é o salário
que será pago ao enfermeiro aprovado: R$ 631,30 por 220 horas
trabalhadas. R$ 2.86 a hora. Um pintor de residência, por exemplo,
cobra R$ 45,00 por dia por 8 horas de serviço. Corresponde à
R$ 5,62 por hora trabalhada e ele nem precisa ter curso superior para
receber esta importância.
Se depender do Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro
– Seccional Volta Redonda (CREMERJ), todos os médicos cadastrados
ao órgão irão boicotar as inscrições
do Concurso Público, como forma de protesto contra a desvalorização
da categoria. “O CREMERJ chama a atenção dos médicos
para não aceitarem este tipo de emprego por este valor”,
disse o conselheiro Julio Meyer, alertando que o órgão
não poupará esforços para que os profissionais
desistam de participar do processo seletivo.
“O próprio Conselho recomenda que não se inscrevam
(os médicos, grifo nosso) por considerar o salário absurdo
e imoral”, declarou o neurocirurgião, que faz parte da
direção do Hospital São João Batista. Ele,
inclusive, deixou um recado para a administração municipal.
“Conclamamos o poder público a discutir uma política
pública voltada para a valorização dos profissionais
da Saúde”, propôs.
A questão dos baixos salários para os graduados em Medicina
não é novidade para a classe. De acordo com Julio Meyer,
este contexto se agrava porque a profissão não é
regulamentada pelo Estado. “Por incrível que pareça,
não temos carga horária e salários definidos. Por
este motivo, as jornadas de trabalho e remunerações são
variáveis”, explicou, alertando que a luta pela regulamentação
da profissão data de muitos anos. “Essa situação
de desvalorização profissional é típica
do Brasil. Até as diaristas têm piso salarial e carga horária
fixa”, comparou.
Ainda segundo Julio Meyer, o projeto de lei que define o piso salarial
dos médicos e cirurgiões dentistas em R$ 7.503,18 por
20 horas semanais de trabalho está em tramitação
na Comissão de Justiça. Corresponde a R$ 375,15 a hora
contra R$ 6,00 proposto na cidade do aço. “O salário
oferecido pela prefeitura está 10% abaixo do valor que estamos
tentando conseguir no Congresso Nacional”, assegurou Julio.
Ele comentou ainda um dos erros da atual administração
municipal. “Comparando os salários oferecidos aos profissionais
com nível superior e técnico, vemos uma diferença
de apenas R$ 200,00”, raciocinou, demonstrando certa indignação.
“Um médico ganhar R$ 200,00 a mais do que um técnico
em Radiologia é um absurdo. Nada contra os técnicos. Eles
também estão ganhando pouco se observarmos a carga horária
(R$ 510,00 para 120 horas, grifo nosso). Minha empregada ganha mais
do que isso”, comparou.
Na opinião de Julio Meyer, o salário de R$ 700,00 não
representa a realidade financeira dos médicos contratados anteriormente
pela prefeitura. “Eles recebem R$3 mil em média. Acredito
que este edital é fruto de um conflito jurídico, talvez
para evitar um impasse no Plano de Cargos e Salários”,
expôs, completando o pensamento. “Como lançam um
concurso público dando a um recém-convocado R$700,00 sendo
que os funcionários mais antigos ganham mais do que isso?”,
indagou.
Para piorar o caso, o CREMERJ reafirma que o concurso público
para provimento de cargos nas Áreas de Saúde e Ação
Social – tendo como instituição organizadora a Fundação
Educacional de Volta Redonda (FEVRE) - será um fiasco. “O
Conselho Regional de Medicina repudia a gestão pública
por não criar uma política pública de Plano de
Cargos e Salários para os profissionais da área de Saúde”,
explanou Julio Meyer, especificando o motivo pelo qual um médico
não pode aceitar este tipo de remuneração. “Não
tem como se dedicar à profissão com estas condições.
Até porque não sobra tempo para ele se reciclar, descansar
e ter acesso aos meios tecnológicos”, analisou. “Não
existe uma boa saúde com remuneração indigna”,
disparou.
A população, como de praxe, também disparou críticas
ao concurso em sites de relacionamento. De acordo com os internautas,
os salários especificados no edital não estimularão
os profissionais da Saúde a se inscreverem no concurso público.
“Um médico ganhar menos de R$800... Isso é desestimulante!
Um salário de fome para um profissional que penou 6 anos na faculdade
e mais vários anos na Residência Médica”,
comentou um internauta.
Em outra postagem, numa comunidade dedicada à Volta Redonda,
um jovem foi além. “O pior de tudo é que muita gente
irá prestar o concurso por necessidade. Uma total desvalorização
do profissional”, observou, alertando que os voltarredondenses
que almejam remunerações melhores devem sair da cidade
natal. “As prefeituras do Norte Fluminense oferecem salários
bem melhores que os da região”, afirmou, demonstrando certa
descrença com os poderes públicos. “Acho que o caminho
passa pelo interesse político, coisa que Volta Redonda parece
não querer muito, pois nos primeiros oito anos de governo Neto,
o funcionalismo não recebeu nenhum aumento real”, escreveu.
Se muitos ainda não engoliram o edital, que o diga os profissionais
de Saúde. Formado na Escola de Enfermagem Anna Nery da Universidade
Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Thiago Oliveira até se animou
ao saber do concurso público da cidade do aço. Mas, logo
desistiu da inscrição ao se deparar com o salário
oferecido. “Esta remuneração é baixa demais
para uma pessoa que tenha curso Superior”, comentou, demonstrando
certo desconforto. “É um salário injusto porque
estudamos 4, 5 anos para ganhar esta mixaria. Pior ainda para os graduados
em Medicina... Estamos falando sobre salvar vidas. Os profissionais
de Saúde deveriam ser mais valorizados”, esclareceu.
Não são apenas os profissionais com nível Superior
que estão reclamando do edital. Segundo o Conselho Regional de
Técnicos em Radiologia 4a Região – RJ (CRTR), o
artigo 16º da Lei 7.394/85 – de regulamentação
do exercício da profissão - estabelece o piso salarial
de dois salários mínimos mais 40% correspondentes ao adicional
de insalubridade sobre esses vencimentos. “De forma que quaisquer
inobservâncias a tais dispositivos legais é afronta que
deve ser rechaçada no competente Tribunal de Justiça,
para que se reponha o devido direito do trabalhador lesado”, alertou
Edson Jorge Rodrigues, assessor jurídico do CRTR, detalhando
que a jornada semanal dos técnicos deve ser de 24 horas semanais.
O concurso
O edital do concurso público foi divulgado em jornais da região
no dia 27 de fevereiro. No total, são oferecidas 170 vagas –
114 para nível Superior e 56 para nível Técnico.
Além disso, fica reservado aos candidatos portadores de necessidades
especiais, o percentual de 10% do total de vagas. São oportunidades
para médicos; fonoaudiólogos; psicólogos; enfermeiros;
nutricionistas; e técnicos em Radiologia, Laboratório
e Higiene. Para quem não desanimou com os baixos salários
e está afim de enfrentar uma prova numa manhã de domingo,
2 de maio, as inscrições para o concurso serão
realizadas através de ficha eletrônica disponibilizada
no www.portalvr.com/concursopublico, de 15 a 30 de março. É
só entrar no portal, baixar o edital e fazer a inscrição.
Basta saber qual profissional da área de Saúde estará
disposto a pagar R$50, tendo conhecimento de que suará muito
para ganhar menos de R$ 800. Já quem possui o nível Médio
e tentará uma vaga como técnico desembolsará R$30,
para ganhar um salário mínimo. Alguém se habilita?
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