POLÍTICA: Administração de Soró como presidente da Câmara provoca ‘racha’
Cartas na mesa

Soró: “Incomodo por reduzir custos”

A população voltarredondense já estava se acostumando, desde 2009, com o clima de paz e amor instalado na Câmara de Vereadores. Mas, bastou a vereadora Neuza Jordão (PV) passar a presidência para o vereador Luís Cláudio Soró (DEM), que as coisas mudaram muito. E atingiram o auge com a renúncia da própria Neuza e da vereadora América Tereza (PMDB) dos cargos que ocupavam, de 1ª e 2ª secretárias, respectivamente.

No centro da confusão, segundo Soró, estaria o contrato assinado entre a Câmara e a Caixa Econômica Federal, no dia 24 de fevereiro, para que o banco administrasse os salários dos funcionários e vereadores. É que de acordo com ele, alguns parlamentares estariam questionando a lisura do acordo. “Tem gente associando a assinatura deste contrato com o trabalho desenvolvido pelo pessoal da Ong Acesa, do meu bairro”, explicou Soró, ontem, sexta, 5, referindo-se à Associação de Desenvolvimento Comunitário e Esportivo Açude, sediada no bairro Açude I e fundada por ele.

Munido de uma pilha de documentos, que pôs à disposição da imprensa, Soró fez questão de destrinchar todo o caso. E explicou que a Ong, em 2007 – quando ele ainda era presidente da entidade –, assinou um convênio com a CEF para participar do Programa de Subsídio à Habitação de Interesse Social (PHS), que visa subsidiar a produção de empreendimentos habitacionais para a população de baixa renda. “Eu não sou mais o presidente da Acesa, mas trouxe os documentos para vocês verem. Não dá pra forjar isso (documentos) de um dia para o outro”, disse Soró, explicando que a escolha das famílias foi feita a partir da necessidade que elas enfrentam. “O dinheiro da Caixa, neste programa, não vai para a Ong nem para as famílias; vai direto para os fornecedores de material de construção. Em contrapartida, a Ong dá a mão-de-obra para reformar as casas”, argumentou.

Portanto, segundo Soró, o convênio assinado pela Acesa com a CEF nada tem a ver com o contrato assinado pelo Legislativo com o banco estatal. Tem mais. Muito embora a vereadora Neuza Jordão, em nota enviada às redações, tenha dito, entre outras, que Soró “toma decisões sem consultar os demais vereadores, nem mesmo os membros da Mesa Diretora”, o parlamentar garante que todos os seus colegas de tribuna estavam cientes tanto da assinatura do convênio com a Caixa quanto de outras medidas administrativas tomadas por ele, como o término do convênio com a Casa de Auxílio ao Menor Patrulheiro (Camp) e a recusa em ceder o plenário da Câmara para uso de seis turmas de um curso técnico de Meio Ambiente.

“Quero deixar claro que todos os meus atos administrativos como presidente da Câmara foram baseados em leis. Quando procuramos um banco para centralizar as contas da Câmara, o Banco do Brasil foi consultado e não se interessou. Por isso aceitamos a proposta da Caixa”, justificou Soró, acrescentando que as negociações com a Caixa tiveram início no ano passado, ainda sob a gestão da ex-presidente da Casa, Neuza Jordão. “Todos os vereadores sabiam disso. Eu só reativei a conversa”, completou, acrescentando, porém, que decidiu suspender o contrato com a CEF devido à polêmica gerada em torno do caso.

Quanto ao término do convênio com o Camp – que desagradou à vereadora Neuza Jordão –, Soró foi categórico ao afirmar que o custo-benefício não estava compensando. “O Camp mantém aqui 21 aprendizes, que recebem R$ 510,00 cada. A conta é fácil: por mês, são R$ 180 mil. Eles têm direito a 13° salário, férias e rescisão contratual. Além disso, a entidade tem direito a 20% desses valores”, enumerou o presidente da Câmara, afirmando que os alunos do Camp beneficiados pelo convênio não passam por nenhuma avaliação, nem por acompanhamento de estágio. “Muitos ficam no Orkut o tempo todo. Se fizessem um curso técnico, a permanência deles aqui compensaria, pois realmente estariam aprendendo alguma coisa. É mais um gasto com o qual a Câmara tem que arcar e acho que existem soluções melhores para ajudar esses adolescentes”, justificou.

Soró disse, ainda, que o término do convênio com o Camp foi discutido com os vereadores em uma reunião realizada em meados de janeiro. “Quando apresentei os argumentos para o fim do convênio, os vereadores concordaram comigo e me autorizaram a fazer isso. A Neuza diz que não foi assim, mas ela foi convidada para a reunião e não compareceu”, disparou, esclarecendo, contudo, que os adolescentes beneficiados pelo projeto não serão ‘despejados’ na rua. “Eles vão sair aos poucos, naturalmente. Só não serão substituídos”.

Em relação à outra reclamação de Neuza, referente ao não empréstimo do plenário da Câmara para eventos da comunidade, Soró foi ainda mais incisivo. “Faço o que o regimento interno da Câmara me permite. A resolução n.° 1.894/97 é bem clara quando diz que o plenário só pode ser emprestado para conferências, reuniões, palestras, assembleias e convenções partidárias promovidas por entidades de classes ou religiosas, partidos políticos ou órgãos do Poder Público”, especificou, revelando que as turmas do curso de Meio Ambiente, defendidas por Neuza Jordão, pediram o plenário para que ali fosse realizada uma formatura, o que, segundo ele, está em desacordo com as normas da Casa. “Formatura não é um evento que interesse à Câmara. Não vou fazer média com os outros emprestando o plenário. Isso gera custos e quem paga é o contribuinte”, disse.

Para reforçar sua afirmação, Soró exemplificou. “O plenário da Câmara foi usado em todo o mês de dezembro para formaturas; a conta de luz ficou em R$ 25 mil, pagos com o dinheiro do contribuinte. Em janeiro, quando o plenário não foi utilizado, a conta ficou em R$ 16 mil e, em fevereiro, em R$ 13 mil”, revelou, confiante de que está no caminho certo para reduzir os custos da Câmara. Tem mais. Para pôr fim à pendenga, Soró disse que vai sugerir aos seus colegas vereadores a criação de uma Comissão Parlamentar Especial para averiguar sua própria administração. “Os vereadores é que vão escolher os componentes da comissão, para que apurem se cometi qualquer irregularidade”, disse Soró, que completou: “Estou tomando atitudes administrativas que reduzem custos. As pessoas vão entender isso, se quiserem. Estou disposto a fazer uma audiência pública para mostrar ao povo onde está sendo gasto cada centavo da Câmara”.

Desistência de candidatura
A polêmica em torno da gestão de Soró como presidente da Câmara está baseada em reclamações de diversos tipos – desde a suposta falta de diálogo entre ele e outros integrantes da Mesa Diretora até suspeitas sobre a contratação da CEF para gerir as contas da Casa – há quem veja uma jogada política nas renúncias das vereadoras América Tereza e Neuza Jordão a seus cargos no colegiado. Afinal, ambas estão cotadas para concorrer a vagas na Câmara dos Deputados nas eleições deste ano. Soró, até a coletiva de imprensa, também estava. Estava. É que, questionado sobre a possibilidade de todo o fuzuê na Câmara ter sido criado para desestabilizar sua possível candidatura, Soró não pensou duas vezes e afirmou, com todas as letras, que vai desistir de concorrer às eleições de 2010.“Se o problema é esse, pronto: não sou mais candidato a deputado federal e faço isso em prol da unidade da Câmara”, concluiu.

América Tereza : “Soró não é o dono da situação”

Procurada para falar sobre sua renúncia ao cargo de 2ª secretária da Mesa Diretora da Câmara, a vereadora América Tereza (PMDB) disse que sua decisão foi tomada por não concordar com o modelo de gestão de Soró. “Não dá para compactuar com a forma como ele vem administrando a Casa. Ele é centralizador, não há diálogo. Ficamos sabendo do que acontece na Câmara através dos jornais”, desabafou. Ela foi além. Disse que não é, nunca foi e jamais será amiga de Soró. “Há tempos não há entrosamento entre eu e ele – isso é público e notório. Tudo para ele é segredo. Se ele não confia em mim para dizer o que vai fazer na Câmara, também não confio nele”, justificou.

A parlamentar acrescentou que desde que Soró assumiu a presidência da Casa, toda a harmonia que norteava o trabalho dos vereadores foi embora. “O clima aqui na Câmara não está legal, tudo por causa da forma como ele administra. Na época da Neuza trabalhávamos em colegiado e era muito bom, pois sabíamos de tudo e decidíamos tudo juntos”, disse a vereadora.

Segundo ela, desde que assumiu o cargo de presidente da Casa, Soró não propôs nenhuma reunião de trabalho e não comunicou suas decisões administrativas aos vereadores. “Ninguém sabia do contrato da Caixa. Se ele diz que sabíamos, está mentindo. Ninguém sabia. Soubemos de tudo pelos jornais”, frisou América, reclamando da falta de material de escritório para trabalhar. “Eu tenho que levar trabalho pra casa no pendrive, porque não tenho como imprimir aqui. Quando pedimos material de escritório, Soró diz que não tem dinheiro, que tem que fazer as contas, mas nunca diz onde está o problema”, afirmou América, que concluiu: “Se ele continuar administrando a Câmara como se fosse uma empresa, a gestão será péssima. Ele foi eleito para ser o presidente, não o dono da situação. Soró precisa repensar seus atos”.


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