Obras:
Construção de usina em Queluz
pode prejudicar municípios do Sul Fluminense
Efeito dominó
Por Melina Santos
Na foto, a usina de Queluz
A construção de uma usina de energia elétrica
na cidade paulista de Queluz poderá trazer sérias consequências
para Volta Redonda. É que apesar da distância entre os
dois municípios – cerca de 100 km, a nova unidade geradora
de energia, tem mexido com os brios de muita gente. Inclusive dos ambientalistas
de plantão. Primeiro, porque para erguer a usina a paisagem natural
está sendo modificada. Segundo, porque há quem garanta
que a existência de mais uma represa no Vale do Paraíba
prejudicará o abastecimento de inúmeras cidades cortadas
pelo Rio Paraíba do Sul. Ou na pior das hipóteses, poderá
aumentar o número de enchentes no período das chuvas,
caso as duas sejam obrigadas a abrir suas comportas.
Para piorar, os municípios fluminenses não foram consultados
a respeito da construção da nova usina, reconhecida pela
ANA (Agencia Nacional de Águas) como uma PCH, pequena central
hidrelétrica. Muitos representantes das prefeituras envolvidas
e de ONGs interessadas foram pegos de surpresa quando descobriram que
a usina de Queluz já está em fase final de construção.
A equipe da Comissão Ambiental da Cúria Diocesana, por
exemplo, responsável pela ação civil encaminhada
ao Ministério Público contra a transposição
das águas do Paraíba do Sul no Estado de São Paulo,
foi uma das associações que ficou sabendo das obras por
acaso.
De acordo com o presidente do Sindicato dos Engenheiros (Senge), João
Thomaz, o grupo se deparou com a edificação durante uma
viagem a São José dos Campos (SP), no final do ano passado.
“Nós estranhamos o fato de uma obra daquelas aparecer do
nada. Passamos por lá de madrugada e elas estavam a todo o vapor”,
explicou João Thomaz, acrescentando que a população
deveria ser informada sobre o projeto. “O Rio Paraíba do
Sul é de competência federal. Eles não deveriam
fazer uma represa sem consultar os municípios”, frisou.
A PCH de Queluz já está em fase de represamento das
águas do Rio Paraíba para a formação do
lago que alimentará seu funcionamento. A central testará
uma das turbinas – duas no total – em março, quando
se espera que o reservatório esteja cheio o suficiente para movimentar
o equipamento. Em abril, entrará em operação a
segunda turbina, para que a usina passe a trabalhar com carga total.
A mesma terá uma potência instalada de 30 megawatts, com
o objetivo de atender ao consumo regional. Para isso, a PCH será
interligada por uma rede de transmissão à central de distribuição
de Santa Cabeça, em Cachoeira Paulista. Os investimentos realizados
pelo grupo empresarial responsável pela usina – Alupar
– são da ordem de R$ 158,2 milhões.
As obras começaram em agosto de 2009, quando as águas
do Paraíba foram desviadas para que uma barragem fosse feita,
permitindo a montagem da casa de força e da elevatória
da usina. O lago da central de Queluz terá capacidade máxima
de armazenamento de 3,37 bilhões de litros e ocupa uma área
de 6,88 km2. Na visão do presidente do Senge, João Thomaz,
espera-se que estudos de impactos ambientais tenham sido feitos para
que a área não seja totalmente prejudicada. “A empresa
responsável terá de fazer uma compensação
pelas alterações na fauna e flora presentes no terreno.
Precisamos acompanhar também a questão dos peixes, pois
o rio é o berçário natural deles”, comentou
o engenheiro.
Mesmo com alguns aspectos positivos gerados por esta construção,
como a contratação de funcionários – em novembro,
1.300 atuavam no canteiro de obras – a presença de mais
uma usina no Paraíba do Sul poderá trazer mais prejuízos
para os municípios vizinhos do que se imagina. Por exemplo, o
nível de águas do rio diminuirá neste período,
pois a PCH está em processo de represamento.
Além disso, o que chama a atenção da Comissão
Ambiental da Cúria Diocesana é que a Usina de Queluz poderá
ter seu funcionamento prejudicado devido ao pouco recurso hídrico
do rio, em território paulista. “A usina precisará
utilizar as águas que passam por São Paulo para acionar
as turbinas. E isso é incoerente, pois o estado está tentando
fazer uma transposição de águas, porque o nível
do rio lá não é suficiente para abastecer a população”,
analisou o engenheiro, completando o raciocínio. “Acredito
que, por isso, a usina não funcionará tão bem assim”.
E, falando em questão ambiental, o modelo da usina de Queluz
já pode ser considerado ultrapassado. De acordo com o ministro
do Meio Ambiente, Carlos Minc, não existe a menor possibilidade
de o Brasil voltar a construir hidrelétricas com reservatórios.
“Já passou a época de usinas com reservatórios.
Isso é coisa do passado e de saudosistas. Já é
uma guerra conseguir aprovar a de Belo Monte [no Rio Xingu, no Pará,
grifo nosso] sem reservatório, imagine se tivesse”, disse
o ministro em entrevista ao jornal O Globo.
O depoimento de Minc é justificado pelo fato de que, desde
a época de 1990, não estão sendo mais construídas
hidrelétricas com reservatórios no Brasil. Estratégia
em nome de um menor impacto ambiental. No lugar delas, estão
sendo implantadas hidrelétricas ‘fios d’água’
– chamadas assim por não possuírem reservatórios.
Quando estiverem em operação, essas usinas precisarão
acionar as termoelétricas para, em determinadas épocas
do ano, gerar energia.
Entretanto, o que tem preocupado ambientalistas é que térmicas
– a gás, carvão ou óleo – são
grandes emissoras de CO2 (gás carbônico), contribuindo
para o aquecimento global. Mesmo assim, eles acreditam que a falta de
reservatórios será complementada por usinas de fontes
alternativas, como a eólica ou da biomassa (bagaço de
cana). Na visão dos especialistas, se comparada às hidrelétricas
com reservatórios, a usina ‘fio d’água’
provoca menos modificações no meio ambiente.
Alarme de enchentes
Na realidade, esta não é a primeira vez que uma situação
de conflito entre os usuários das águas do Paraíba
do Sul acontece. Só para relembrar, o decreto lançado
pelo Governo do Estado de São Paulo para viabilizar a transposição
de águas do rio para abastecer a população, já
deu muito que falar. De acordo com o Instituto Estadual do Ambiente
(Inea), o cenário se intensifica devido à necessidade
de atender aos vários usuários do rio – que se estendem
pelos estados de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro. “tornando
sua gestão mais complexa diante dos diferentes atores sociais
envolvidos”.
Paraíba será represado
Logo, a preocupação demonstrada pela Comissão
Ambiental da Cúria Diocesana é aceitável Pelo fato
do Paraíba do Sul ser a única fonte de abastecimento para
mais de 12 milhões de pessoas no estado do Rio de Janeiro. Seu
fornecimento é efetivado em duas formas: na captação
direta para as localidades ribeirinhas ou pelo rio Guandu, que recebe
o desvio das águas para aproveitamento hidrelétrico. O
serviço é realizado por Furnas Centrais Elétricas
- com o reservatório do Funil (Resende) - e a empresa Light,
com as represas de Santa Cecília, Vigários, Santana, Tocos
e Lajes.
Em São Paulo, três usinas hidrelétricas estão
em operação – Paraibuna, Santa Branca e Jaguari.
Porém, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel)
liberou estudos para a construção de mais três centrais
no Vale do Paraíba. Situação que incomoda João
Thomaz. De acordo com ele, se todas as usinas localizadas na bacia não
realizarem um plano integrado de operações, vários
municípios sofrerão com o perigo de enchentes.
“Se estas represas resolverem soltar as comportas ao mesmo tempo,
a tendência é de que toda a água venha abaixo. Logo,
nossa região receberá toda a vazão”, avaliou
o engenheiro, observando que para evitar o transtorno, as usinas precisarão
agir em conjunto. “Quando uma represa tiver de abrir as comportas,
que avise as outras para não liberar águas ao mesmo tempo.
É necessário manter o nível de segurança
para as cidades ribeirinhas”, afirmou.
A posição de João Thomaz é completada
pela opinião do ex-vereador de Barra Mansa, Rodrigo Drable. Em
seu blog, ele faz uma crítica à falta de informações
sobre o nível de operação das represas localizadas
no Vale do Paraíba. O principal alvo dos disparos foi o reservatório
do Funil. “Quando as represas precisam aumentar a vazão
de liberação de águas, elas simplesmente o fazem
sem comunicar prefeituras e componentes da Defesa Civil”, assegurou
Rodrigo, ressaltando que os alagamentos ocorridos na região poderiam
ter sido amenizados, caso as operadoras mantivessem a população
informada. “É essencial que se disponibilize um site com
as informações de risco de enchente”, aconselha.
Já no blog do Julinho (Controlador Geral da Câmara
de Vereadores de Barra Mansa, Júlio Esteves, grifo nosso),
uma postagem sugere que a represa do Funil não está preocupada
com o bem-estar da população. “Furnas, chega de
brincadeira. Vocês são irresponsáveis e vidas estão
em risco. Precisamos saber a quantas anda nossa segurança”,
alertou. Além disso, no mesmo tópico, ele comentou que
um projeto de lei para forçar Furnas a divulgar diariamente estes
dados já está a caminho. “Essas informações
são indispensáveis à vida dos seres humanos. O
deputado Ademir Melo está trabalhando para apresentar esse projeto
de lei estadual em regime de urgência especial”, finalizou.
Porém, a assessoria de imprensa de Furnas não deixou
barato e postou um comentário no blog. Alegou que a Represa do
Funil havia fechado o vertedor - que proporcionava uma vazão
de 100 m3 de água por segundo - na manhã do dia 27. Por
isso, o reservatório estava com 76% de sua capacidade de armazenamento
e controle de vazão. “Todas as informações
são repassadas diariamente para as Defesas Civis de todos os
municípios a jusante da barragem. Elas são responsáveis
pela comunicação de quaisquer alertas para as populações”,
informou.
O major Rodrigo Ibiapina, coordenador da Defesa Civil de Volta Redonda,
acha que todos os dados repassados por Furnas são confiáveis.
Ainda de acordo com ele, as informações referentes às
usinas de Vigário e Funil são coletadas diariamente pela
equipe.
Em 2009, foi realizada uma reunião com coordenadores das Defesas
Civis, engenheiros das empresas Furnas e Light, e moradores de Resende,
Barra Mansa, Volta Redonda, Pinheiral e Barra do Piraí. “Eles
conheceram as rotinas e procedimentos adotados nas represas. Na ocasião
muitas dúvidas foram esclarecidas”, ressaltou.
Não é apenas isso. Segundo Rodrigo Ibiapina, a elevação
do Rio Paraíba do Sul até o nível de 3,67m foi
ocasionada devido ao período de fortes chuvas, e não pela
abertura de comportas das hidrelétricas. Na última quarta,
3, a Defesa Civil divulgou que a altura do rio contabilizava 2,04 metros
acima do normal. “O aumento do volume de água em todas
as contribuições do Paraíba, principalmente nos
seus afluentes, foi a causa ‘primária’ das inundações”,
finalizou. Há controvérsias.
Nota da redação: O aQui tentou
entrar em contato com o secretário de Meio Ambiente, Carlos Amaro,
para comentar sobre o assunto. Mas, até o fechamento desta edição,
ele não retornou as ligações feitas.
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