POLÍCIA:
Bocas de fumo de Volta Redonda não
têm donos; só gerentes
Tráfico franqueado
Não é novidade para ninguém que em Volta Redonda
existe uma disputa ferrenha pelo controle dos pontos de venda de drogas,
um negócio altamente lucrativo. E que a cada semana surgem novas
mortes por conta desta disputa. Só em janeiro foram 10 assassinatos
ligados ao tráfico. O que pouca gente sabe – o que não
é o caso das Polícias Civil e Militar – é
que os traficantes que se digladiam entre si para tentar tomar o ponto
do outro, não passam de meros gerentes do tráfico. Ou
seja, eles não são donos de nada, brigam pelo que nunca
será deles e quando conseguem conquistar territórios na
cidade do aço, isso significa que terão apenas mais clientes,
o que aumentará o lucro a ser remetido para a cidade maravilhosa.
É que os verdadeiros donos são os traficantes dos morros
do Rio, que fornecem drogas e até armas, e ainda exigem um relatório
das vendas efetuadas no Sul Fluminense, pois envolve pontos em Volta
Redonda, Barra Mansa, Pinheiral etc. “A coisa é extremamente
organizada”, disparou um policial que pediu anonimato e contou,
com exclusividade ao aQui, como funciona o tráfico
de drogas na região. Segundo ele, a droga vem de duas facções
criminosas do Rio de Janeiro: do Comando Vermelho Rogério Lengruber
(CVRL) e do Terceiro Comando da Capital (TCC). Ambas são rivais
entre si e disputam, em todo o Estado, todas as bocas de fumo rentáveis.
Em Volta Redonda, de acordo com o policial, as duas facções
já se instalaram há muito tempo. A disputa que se vê
hoje entre os traficantes que atuam em bairros diferentes, nada mais
é do que uma tentativa de trocar o fornecedor. Em outras palavras,
se a droga vendida no Complexo Vila Brasília, por exemplo, vem
do CVRL, a facção rival – ou seja, os traficantes
ligados ao TCC – vai tentar tomar o ponto para que ali seja vendida
somente a droga da organização criminosa da qual fazem
parte. “Os traficantes de Volta Redonda sempre brigaram pelo controle
das bocas. A disputa é generalizada. Um bairro disputa com outro
para ver qual droga será vendida ali. É assim que funciona”,
revelou o policial.
Por conta disso, continuou, os traficantes que agem pela cidade e região,
independente da facção criminosa para qual trabalham revendendo
a droga, têm contato direto com os verdadeiros donos das bocas
de fumo no Rio de Janeiro. As drogas chegam a Volta Redonda embaladas
com a etiqueta da facção e depois são misturadas
a outras substâncias e embrulhada para venda. A maioria, explicou,
é vendida em sacolés com preços que variam de R$10,00
a R$ 50,00, dependendo da mistura. “Existe uma central no Rio
que é a grande fornecedora. Eles sabem quanto vem pra cá,
valores, quem vai receber e até quem compra”, revelou o
policial. “Isso não é novidade para a Polícia
Militar e nem para a Civil”, garantiu.
De acordo com a fonte, quando os traficantes de Volta Redonda conseguem
tomar um ponto de droga, eles ganham prestígio junto aos chefões
do Rio e, consequentemente, o respeito de criminosos do mesmo bando.
A partir daí, passam a poder ostentar o título de ‘chefão’
do tráfico no bairro onde atuam. É o caso de bandidos
como Paulo Sérgio Neto, o Paulo Garrucha, do Vale Verde –
um dos bairros que compõem o Complexo da Vila Brasília.
Segundo o comando da 93ª Delegacia de Polícia de Volta Redonda,
Garrucha estaria por trás das duas mortes ocorridas no bairro,
no dia 13 de janeiro, quando foram assassinados a tiros Fabrício
Carvalho Golte, 22, e Dião Iris Vieira Leite, 25. Garrucha também
é suspeito de ter tomado a boca de fumo de Adenílson Monteiro,
o Rolha, na Vila Brasília.
Tem mais. Marcelo Camilo de Souza, o Marcelo Paraíba, seria
mais um deles. Foragido da Polícia, ele tem seu reduto no Padre
Jósimo e juntamente com o irmão, Márcio Camilo
de Souza, o Guinho, e Robson Gladstone Dias, o Maninho, teria atirado
contra sete pessoas na madrugada de domingo passado, 31, na Vila da
Cidadania, no Belmonte. Três pessoas morreram: Deive Heleno de
Oliveira, 31, Fábio da Silva Tomáz, 24, e Leandro Júnior
Leonardo, 33. Outras quatro foram baleadas, são elas: César
Lemos de Oliveira, 30, Adão de Abreu, 42, Bento Wilson do Nascimento,
46. O quarto baleado não foi identificado pela Polícia,
já que fugiu do Hospital São João Batista enquanto
aguardava atendimento médico.
Um outro ‘chefão’ do tráfico em Volta Redonda
que vem sendo procurado pela Polícia é Leandro Nascimento,
o Leandro da Minerlândia - acusado de matar um policial civil
há sete anos durante um assalto na Vila Santa Cecília.
Ele é suspeito ainda de gerenciar o tráfico na Minerlândia,
em Volta Redonda, na Vila Coringa, em Barra Mansa, em Angra dos Reis
e até na favela Nova Holanda, no Complexo da Maré, Zona
Norte do Rio. O fato de gerenciar uma boca de fumo em uma comunidade
do Rio é um dos motivos que leva a Polícia a acreditar
na ligação – empresarial, grifo nosso - de traficantes
de Volta Redonda com os da capital. “O contato começa dentro
dos presídios. Todos esses já foram presos e saíram
graças a indultos concedidos pela Justiça”, revelou.
Por fim, a Polícia investiga o paradeiro de Fabrício
de Jesus, o Bicinho. Seu reduto é no Dom Bosco e ele é
suspeito de ter matado um jovem de 18 anos, conhecido como Rafaelzinho,
durante uma festa de rua, realizada no bairro em maio de 2009. Outras
cinco pessoas foram baleadas. Na época dos crimes, policiais
civis descobriram que Bicinho teria um plano para matar o delegado adjunto
da 93ª DP, Michel Floroschk, e outro para sequestrar um investigador
da mesma delegacia. Bicinho vive em guerra pelo controle dos pontos
de venda de drogas no bairro Dom Bosco e também no Complexo da
Califórnia, em Barra do Piraí.
Polícia divulga fotos
No final da tarde de quinta, 4, o delegado titular da 93ªDP, Alexandre
Leite, divulgou as fotos dos traficantes mais procurados pela Polícia.
Eles estariam por trás das mortes ocorridas na madrugada de domingo,
31, no Belmonte. Todos são foragidos de presídios de Rio
e receberam o indulto de Natal, concedido pela Justiça, para
visitar seus familiares e não retornaram à prisão.
Segundo informações do policial que pediu anonimato, a
Polícia sabe o paradeiro de todos eles. Pegá-los é
apenas uma questão de tempo.
Tem mais. De acordo com o policial, a única coisa que tem impedido
a prisão imediata dos criminosos é a falta de entendimento
entre os agentes de segurança envolvidos na questão. “Sabemos
que alguns policiais receberam uma grande quantia em dinheiro, vindo
do tráfico, para liberar o Marcelo Paraíba, o Maninho
e o Leandro da Minerlândia”, dispara ele, que vai além.
“A Polícia sabe onde eles estão e até onde
dormem. Mas daqui a pouco esses mesmos policiais vão pedir mais
dinheiro para o tráfico, para não prender esses bandidos”,
concluiu.
A informação dada pelo policial que pede anonimato pode
ter fundamento. Afinal, o comandante do 28° Batalhão de Polícia
Militar, tenente-coronel Licínio Fróes, disse ao aQui
que está a ‘oxigenar’ a corporação.
“Mudei a tropa. Oxigenei a minha turma. Quero resultados”,
disparou, explicando, porém, que não afastou nenhum policial
do 28° BPM, exceto os que já respondem a inquérito
administrativo. “Tirei policiais de alguns setores, reforcei a
P-2 (serviço reservado) e aumentei o policiamento ostensivo nas
ruas”, revelou.
Embora tenha negado ter recebido alguma denúncia envolvendo
policiais militares, o comandante Fróes fez questão de
esclarecer que não afastou nenhum policial por motivos graves.
“Eu só quero resultados. E a equipe que estava na ativa
não dava resultados. Resolvi dar oportunidade aos policiais que
estavam no banco de reserva”, afirmou.
Traficantes de VR querem criar ‘grife’
O que parece é que os gerentes do tráfico em Volta Redonda
estão cansados de comandar as ‘franquias’ cariocas
de venda de drogas. Querem deixar de ser meros subalternos para subir
de posto e chegarem a donos das bocas de fumo que gerenciam. Para isso,
estão tentando uma aproximação maior com os bandidos
da capital e pretendem criar uma espécie de ‘grife do crime’
para anexar às drogas que revendem. “O slogan CVVR –
que significa Comando Vermelho de Volta Redonda –, seria uma tentativa
de aproximação maior com os bandidos das comunidades do
Rio”, confirmou o comandante do 28° BPM, Licínio Fróes.
Segundo ele, a ideia surgiu dentro dos próprios presídios
do Rio, quando os traficantes daqui cumpriam pena junto com os criminosos
da capital. “Estamos montando uma operação em conjunto
com a Polícia Civil para acabar com isso”, limitou-se a
dizer, lembrando, contudo, que a ajuda da população é
imprescindível para que os bandidos sejam localizados e presos.
“Peço que os moradores que tenham alguma informação
que mandem uma carta anônima para o Batalhão. É
importante que nessa carta os moradores desenhem um croqui, uma espécie
de mapinha, indicando o endereço de onde esses criminosos dormem”,
pediu o oficial, que conclui: “Eles são foragidos da Polícia.
É só algemá-los e devolvê-los ao presídio”.
Quem dera fosse simples assim.
Alerj aprova sigilo em inquéritos policiais
A Alerj aprovou em primeira discussão o projeto de lei 2.042/09
que obriga a Polícia Civil a adotar medidas de preservação
de segurança nos Boletins de Ocorrência (BOs) para vítimas
e testemunhas de crimes. Em outras palavras, a Civil deverá garantir
o sigilo da identidade das pessoas que reconhecerem indiciados, e não
poderá divulgar, em hipótese nenhuma, nenhum dado pessoal
sobre elas. Pelo texto, o sigilo só não será aplicado
a advogados legalmente constituídos, aos representantes do Ministério
Público e à autoridade judiciária competente.
Para a autora do projeto, a deputada Graça Pereira, os dados
pessoais de vítimas ou testemunhas de crimes não precisam
ser transcritos nos BOs ou em inquéritos. “Devem ser transcritos
em documento próprio a ser lacrado e entregue à Justiça.
Desse modo, vítima e testemunhas ficariam resguardadas de divulgações
impróprias”, acredita a parlamentar.
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