COMPORTAMENTO: Biólogo constrói casa, quase em sua totalidade, de material reciclado
Um conto de fadas sustentável

Por Melina Santos

Era uma vez, um casal apaixonado que morava em uma casa de três andares, em um local calmo, com árvores diversas e animais silvestres. Os dois viviam felizes em uma moradia nada convencional. O telhado possuía cascas de café, as paredes eram revestidas com garrafas e o teto composto por papel carbono...

Quem lê esta introdução, imagina que a descrição acima seja a de um conto de fadas inédito, com tudo o que tem direito: animais falantes, bruxas e muita magia. Mas, para a surpresa de muitos, o relato é real. A ‘fábula’ se passa em uma propriedade localizada no distrito de Santa Rita de Cássia, em Barra Mansa, e tem como personagens principais o biólogo Luiz Toledo de Sá e sua esposa, Edina Toledo, que construíram uma residência, quase na sua totalidade, de material reciclado.

Para construir a casa amarela, de 400 metros quadrados, foram necessários 13 meses de obras. Neste período, caminhoneiros transportaram para o terreno entulhos, garrafas, papeis e latinhas. Para montar a estrutura monumental de 3 quartos, um salão de festas e oito banheiros, três caminhões lotados com garrafas de vidro – um total de 24 toneladas – foram adquiridos.

Com a máxima de que na natureza, nada se perde, tudo se transforma, ao percorrer a moradia é possível perceber que a imaginação do biólogo não cansa de aplicar alternativas para os materiais de construção comuns. Para começar, os muros que protegem a casa são de isopor. Logo na entrada da propriedade, os visitantes se deparam com uma fonte cristalina que brilha em contato com a luz solar. Só que não imaginam que a mesma é água de esgoto tratada por um sistema criado pelo próprio biólogo.

Até o estacionamento segue os padrões do imóvel. É feito com pneus, assim como algumas escadas. Ao entrar na fantástica casa de recicláveis, em cada corredor, os tijolos são substituídos por componentes comuns no dia a dia: as latas de óleo saem das cozinhas literalmente para as paredes, assim como bandejas de isopor, caixas de leite, cascas de ovos e de maçã. Até esterco e sacos de cimento tiveram suas finalidades modificadas para comporem o cenário. “A construção é ecologicamente viável, mas não resolve o problema da poluição do planeta em si. Tudo aqui é reutilizado, inclusive a comida”, conta Luiz Toledo.

E tudo é reaproveitado mesmo. Alguns telhados são feitos de cascas de café, outros de restos de papelão e madeira, alguns de caixas de leite e fibras vegetais... Em cada canto da casa, os visitantes se deparam com um universo cheio de possibilidades. As bancadas e pisos são compostos por sobras de marmorarias, o teto é revestido com bambus encontrados em estradas. A cozinha, com direito a fogão de lenha, tem paredes de entulhos de obras cobertas por garrafas pet e de vidro. Nos banheiros, equipados com aquecedores solares, papiros forram as paredes. Na descarga sanitária, a mesma água cristalina apresentada pelo tratamento do esgoto doméstico. Nem a mistura de água e sabão foge à regra: uma caixa de 3000 litros armazena todo o líquido proveniente da lavanderia, que será utilizado na limpeza de áreas ou dos próprios banheiros. A casa também é abastecida por um sistema de água potável.

De acordo com Luiz Toledo de Sá, o que motivou o desenvolvimento do projeto foi a busca pela qualidade de vida. Antes de se mudar para Santa Rita de Cássia, ele e sua esposa, casados há 43 anos, moravam no Conforto, em Volta Redonda, em uma casa aconchegante, com dois andares, piscina e aparelhos de ar condicionado por todos os lados. Para alcançar a qualidade de vida que sempre almejaram, o casal investiu R$ 39 mil. “Mesmo com todas as regalias, tínhamos uma qualidade de vida ruim, com tudo o que a cidade impõe”, analisou, aproveitando para mostrar como a temperatura da casa é agradável, pois os materiais que revestem as paredes não acumulam calor. “O sistema capitalista impõe um ritmo de vida que não é sustentável. Todos trabalham no ritmo desta loucura. Não preciso mais de ventiladores”.

Tanto que quando precisa enfrentar a cidade, Luiz e Edina percebem quanto são felizes em seu refúgio. “Eu me sinto bem morando aqui. Quase morro para ir ao banco ou resolver outro problema, pois o calor na cidade é insuportável”, contou o biólogo, acrescentando que mesmo no verão, precisa usar cobertores para dormir. “Estamos aqui há sete anos. A casa é tão fresca que chega a fazer frio de madrugada. E, olha que cada parede custou apenas R$28,00”, afirmou Luiz, ressaltando que os únicos elementos tradicionais na moradia são as colunas de concreto e a luz. “Isso já está com os dias contados. Estou terminando o projeto para implantar um sistema de energia eólica [obtida através da força do vento, grifo nosso]”.

Enquanto percorre a casa, explicando parte por parte, o biólogo pára em frente à parede de cascas de maçã, papeis e caixas de ovos e chama a atenção para a pessoa que o ajudou a construí-la. “Um menino de 14 anos me ajudou a fazê-la, pois nenhum pedreiro acreditou que isto daria certo. Cinco pessoas que não são construtores me auxiliaram a tornar todo este sonho em realidade”, explicou, tocando na parede.

“O povo perdeu essa capacidade de criar. Mas, antigamente, os pedreiros utilizavam esses materiais para construir”, afirma. E ao persistir em seu ideal, Luiz não parou por aí. As janelas, portas e camas são feitas de tábuas que sobraram de outras obras. Os quartos - com decoração simples – possuem iluminação colorida, com abajures montados com vidros de maionese. Ao invés de guarda-roupas, um closet adaptado com bambus organiza as roupas.

A casa laranja
Não satisfeito com o caráter inovador da casa, o biólogo está construindo outra ‘mansão’ no mesmo terreno. Nesta nova fase, Luiz conquistou mais parceiros para multiplicar o milagre. Sete pessoas trabalham com ele, desde dezembro de 2008, na construção da moradia revestida com jornais, papéis e entulhos. Para a casa – literalmente – não voar, as paredes possuem sustentação de cabos de aço, fincados no chão. A tinta de cor laranja é especial para proteger o papel das mudanças climáticas, como chuvas e ventos.

A matéria-prima dos telhados é caixa de leite. Até o caminho para chegar à moradia é diferente: o mesmo bondinho - com sistema eletromecânico - fabricado para transportar verduras, esterco e outros objetos para o alto do morro, é utilizado pelos donos para chegar até a residência.

E mais uma vez, ao entrar no local, outro universo de possibilidades é apresentado aos olhos de quem acreditava que prédios podem ser construídos apenas com tijolos e cimentos. “O jornal e a revista são lixados e pintados sem massa”, acrescentou o biólogo. Os mosaicos – de cavalos marinhos, peixes - montados nas paredes são feitos com resíduos de marmorarias. Ao olhar para o teto, não há cerâmica, mas sim esteiras. A cozinha foi decorada com pedaços de blindex (vidros temperados), que caíram de um caminhão após um acidente e latas de refrigerante. Na área de lazer, uma piscina de dar inveja a qualquer um, com água potável.

Dona Edina não se faz de rogada e logo solta algo que já era óbvio para os visitantes: “O melhor está na parte de cima. Moramos em uma caixa de surpresas”, disse. Ela tinha razão. No segundo andar, os tetos de retalhos e bambus se contrapõem às paredes revestidas com discos de vinil, árvores genealógicas pintadas, latinhas de cerveja e até com uma maquete em alto relevo da cidade do aço. “Viu, não falei que o melhor estava na parte de cima?”, perguntou, toda orgulhosa com o bom andamento da construção.

Ao sentir o clima da casa, percebe-se o porquê do casal não querer trocar esta vida por nenhuma outra. “Temos outra qualidade de vida. Não há poluição sonora ou do ar. Não precisamos mais de ventiladores. Por isso, dou toda a força para qualquer projeto que o Luiz faça”, defendeu a esposa, a qual fazia carinho em uma das paixões do casal: o gato preto Pachola ao mesmo tempo em que falava. Além dele, há um gato rajado, um cachorro – batizado como Fumaça - e três galos: Frederico, Robinho e Caetano. “Nós criamos os galos para comerem as aranhas que aparecem por aqui”, contou Edina.

CREIA
Com um refúgio digno de contos de fadas, o biólogo pretende estender a vida sustentável para outros moradores do bairro. Um Condomínio Rural Ecológico Integrado Autossustentável (CREIA) será implantado no terreno, para que 20 famílias possam desfrutar de uma vida com economia solidária. Assim, toda a base de um sistema ecológico como tratamento de resíduos sólidos e esgoto, produção de defensivos biológicos (um biodigestor transforma fezes bovinas em adubos), plantio da mata, galinheiro e galpão de reciclagem, está praticamente pronta.

O condomínio também proporcionará aos felizardos uma área de lazer, oficina, curral, estufa de plantas ornamentais, além de horta, auditório e uma cozinha industrial. Cada moradia terá 3 quartos, com 30 metros quadrados. A comida será produzida na área de lazer da casa para todos os moradores. “Criaremos bois, cultivaremos frutas e verduras sem química, pois nossos adubos são orgânicos. Tudo será baseado na agricultura de subsistência. O excesso da produção será vendido”, explanou o aposentado, justificando que a ideia não objetiva o lucro. “Enquanto não tiver a estrutura ecológica certa, não vou ceder o lugar. Não quero dinheiro. Quero dar a oportunidade para outras pessoas terem qualidade de vida, sem neurose, sem as doenças da modernidade”. Atualmente, há uma lista de espera com 65 interessados que desejam morar no local.

Como toda fábula que se preze, a moral da história é dada por Dona Edina: “O nome do condomínio (CREIA) é proposital. Precisamos crer que tudo é possível. Para isso, só precisamos respeitar a natureza, ter fé em nossos ideais e acreditar que outra forma de viver é possível”.

E viveram felizes para sempre.

FIM.


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