POLÍCIA:
Delegado de Polícia nega à
imprensa o acesso aos registros de ocorrência da 90ª DP
A volta da mordaça
A radialista Sarah Lee é conhecida em Volta Redonda e Barra
Mansa por comandar, há mais de 20 anos, o programa ‘Patrulha
480’, transmitido pela Rádio do Comércio. Mas, desde
o início do mês, Sarah não tem tido acesso a nenhuma
informação sobre a qual possa falar em seu programa policial.
Atualmente, ela preenche os 60 minutos que tem na grade da programação
com ‘amenidades’, tipo atendimentos feitos na Santa Casa
de Misericórdia e notícias de Volta Redonda, Resende e
até Paracambi. Tudo, menos as notícias envolvendo crimes
e prisões feitas pela Polícia Civil em Barra Mansa, como
sempre fez desde que assumiu o comando do programa.
O motivo para isso não é simples. Muito pelo contrário.
Envolve uma determinação do delegado titular da 90ª
DP de Barra Mansa, Jardiel dos Santos Melo, de impedir que a mídia
regional – incluídos aí os jornais, rádios
e emissoras de televisão – tenha acesso a informações
do B.O. (Boletim de Ocorrências) relativas aos crimes cometidos
no dia a dia do município. Pior. Os jornalistas são, de
acordo com a radialista, “personas non gratas” nas dependências
da DP local. Trata-se, segundo ela, de um caso típico de cerceamento
à liberdade de imprensa.
Em entrevista ao aQui na manhã de quinta,
25, minutos antes de apresentar seu programa na Rádio do Comércio,
Sarah Lee revelou que toda a confusão começou quando o
jornal Diário do Vale publicou uma reportagem dando conta da
existência de tráfico de drogas em frente ao Fórum
de Barra Mansa, na Avenida Argemiro de Paula Coutinho. O problema, de
acordo com ela, é que o caso estava sendo investigado pela Polícia
Civil sob sigilo. “A informação teria vazado ainda
na gestão do Dr. Marcus Henrique de Oliveira Alves (ex-delegado
da 90ª DP, grifo nosso) e acabou publicada pelo Diário
do Vale. O Dr. Jardiel assumiu e foi chamado ao Fórum para dar
explicações”, relata Sarah Lee, dando a entender
que o policial não gostou de ser cobrado.
De acordo com a radialista, foi depois disso que as coisas começaram
a ficar complicadas. No dia 14 de maio, segundo ela, o delegado teria
enviado um ofício à imprensa local avisando – num
texto repleto de expressões em latim - que todas as informações
relacionadas às investigações em curso na 90ª
DP somente poderiam ser repassadas à mídia com autorização
expressa dele. De ninguém mais. “Ele (Jardiel) começou
a agir dessa maneira: não colocando os registros na pasta, até
que ele acabou com a pasta de imprensa”, resume Sarah, que tem
tentado, sem sucesso, convencer o delegado a mudar sua determinação.
“A última vez que tinha um registro de ocorrência
foi no dia 8 de junho. Quando chegamos à delegacia no dia 9 já
não tinha mais nada. Não tinha mais pasta da imprensa”,
revela a radialista, contando que dias antes, quando a pasta de registros
ainda estava acessível aos repórteres, o delegado Jardiel
teria colocado um aviso dizendo que “somente autoridade policial
colocará r.o’s (registros de ocorrência, grifo nosso)
nessa pasta, sem exceção”.
Inconformada, Sarah Lee diz não entender os motivos que levaram
o delegado Jardiel Melo a vetar a presença da imprensa na 90ª
DP. “Eu nunca tive problema com autoridade nenhuma. Faço
cobertura policial desde 1986 e nunca vi isso acontecer antes”,
reforça, garantindo que sempre teve uma relação
bastante amistosa com todos os delegados que passaram por Barra Mansa
nos últimos 20 anos. Inclusive com Jardiel Melo, que no final
da década de 90 ocupou o cargo de delegado-adjunto na mesma delegacia
que hoje comanda.
Numa das poucas conversas que teve com Jardiel Melo desde que todo
o imbróglio começou, Sarah até tentou argumentar.
“Eu disse que, quando ele esteve aqui como delegado-adjunto, éramos
amigos. Sabe o que ele me disse? ‘Antes eu era adjunto, eu cumpria
ordens. Hoje sou titular e não quero mais’”, revela
Sarah Lee, quase se arrependendo de ter enviado flores ao atual delegado
no dia de sua posse, no início de maio.
“Esse era meu relacionamento com todos os delegados, todos.
Na chegada do Dr. Jardiel eu mandei flores, mas não para ‘comprar’,
nada disso. É a minha maneira, sempre trabalhei assim”,
justifica a radialista Sarah Lee, que não sabe mais a quem recorrer
para resolver o problema. A própria imprensa regional, segundo
ela, pouco tem feito para mudar a situação. “Ninguém
tem ocorrência de Barra Mansa. E porque é que eles (repórteres)
se calam? Eu não consigo entender. É mais fácil
pra eles fingir que nada está acontecendo. Você vê
nos jornais, tem notícia de Paracambi, Resende... o que interessa
para a nossa população?”, desabafa ela, que questiona:
“Por que só eu? Eles (repórteres) estão esperando
o quê acontecer?”.
Embora reclame da falta de apoio dos colegas de imprensa, Sarah revela
que o presidente do Sindicato dos Jornalistas do Sul Fluminense, JC
Moreira, foi o único a tentar ajudá-la a resolver a pendenga.
“Ele também tentou interceder. Conversou com Dr. Paulo
Passos (diretor da 9ª CRPI, grifo nosso) que teria determinado
que o delegado Jardiel Melo liberasse a pasta de imprensa. Mas o Jardiel
não acata ninguém e disse que não ia liberar”,
conta a radialista.
Sem o apoio dos colegas de profissão e sendo ignorada pelo delegado,
Sarah Lee pediu ajuda à Secretaria de Segurança Pública
e ao chefe da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro, Allan
Turnowski. “Já enviei e-mail para o Dr. Beltrame (secretário
de Segurança), para o Dr. Turnowski – que já foi
delegado aqui, conhece o meu trabalho – e ninguém me respondeu.
Isso já tem quinze dias e até hoje não obtive resposta”,
indigna-se, contando que na quarta, 24, encaminhou a reclamação
para o blog do ex-governador Garotinho.
De acordo com Sarah, um dos maiores problemas ocasionados pela falta
de informações da delegacia é que a população
barramansense, segundo ela, está sendo levada a crer que tudo
está às mil maravilhas. “Não está.
Barra Mansa tem estupro, invasão de residência. A sociedade
está achando que Barra Mansa é uma cidade tranquila porque
ele, Jardiel, quer mostrar que isso aconteceu depois que ele assumiu.
Mas a violência, na verdade, está cada vez maior”,
denuncia Sarah Lee, que vai além.
Diz, entre outras, que as viaturas da Polícia Civil permanecem
paradas na porta da delegacia. “As pessoas não podem mais
sair à noite em Barra Mansa porque não tem polícia.
As viaturas ficam todas paradas na porta da DP”, dispara Sarah.
“Nós não estamos tendo liberdade para entrar na
delegacia. Os policiais sentem medo de dar informação
porque estão proibidos de fazer isso”, completa, despejando
toda a sua indignação. Afinal, diz, o programa ‘Patrulha
480’ é policial. E sem as informações da
Polícia Civil, Sarah não consegue trabalhar. “Os
meus ouvintes ligam revoltados com essa situação. Daqui
a pouco vai acontecer o quê? Eu não estou produzindo nada
na rádio, o que vai acontecer comigo?”, questiona. Apesar
do medo de ficar desempregada, Sarah Lee deseja que tudo se resolva
em breve e da melhor maneira possível. “Tenho esperança,
sim. Espero pelo bom senso das autoridades, não do Dr. Jardiel”,
finaliza.
O aQui tentou, durante toda a semana, ouvir a versão
dos repórteres policiais dos jornais Diário do Vale e
A Voz da Cidade. Nenhum quis dar entrevistas. Já o delegado titular
da 90ª DP, Jardiel dos Santos Melo, não foi encontrado para
falar sobre o assunto. A Secretaria de Segurança Pública
do Estado do Rio de Janeiro também foi procurada, mas orientou
a reportagem do aQui a entrar em contato com a assessoria de imprensa
da Polícia Civil. Na tarde de quinta, 25, um funcionário
da assessoria da PC, identificado apenas como Luiz, afirmou que a Polícia
Civil não irá se posicionar sobre o caso. Haja!
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