SINDICAL:
Panfletagem na porta da SBM e da Saint
Gobain vira caso de polícia
Vias de fato
‘Companheiros’ agredidos
O estado de camaradagem existente entre o presidente do Sindicato dos
Metalúrgicos, Renato Soares, e a CSN, principalmente quando do
desfecho do acordo coletivo 2009, terminou nos portões da Usina
Presidente Vargas. Nas outras fábricas o clima é de guerra,
com direito a socos, chutes, pontapés, empurrões e até
ameaças de morte. Foi que ficou provado ontem, sexta, 26, por
volta das 6 horas da manhã, quando a situação ficou
feia em frente a Saint Gobain e a Siderúrgica Barra Mansa. Dois
militantes do Conlutas – movimento de oposição ao
Sindicato dos Metalúrgicos – foram agredidos por Bartolomeu
Citelli, homem de confiança de Renato Soares, que segundo fontes,
é forte candidato à sucessão de Renato.
A agressão de Bartolomeu Citelli teria sido feita contra os
representantes do Conlutas, Isabel Fraga de Paula e Elton Correa. Ambos
teriam apanhado do diretor do Sindicato por estarem panfletando em frente
à porta de entrada da Saint Gobain, em Barra Mansa. O folheto
do Conlutas apresentava mensagens de alerta aos trabalhadores da siderúrgica,
para que eles não aceitassem passivamente as propostas de ‘arrocho
salarial’ oferecidas pela empresa durante as negociações
do acordo coletivo. Tem mais. O material continha mensagens de apoio
a uma possível greve, caso a Saint Gobain não apresentasse
aos seus funcionários uma proposta de aumento real incorporada
ao reajuste salarial. Bartolomeu, claro, não gostou.
A situação começou a ficar feia depois que Isabel
e Elton teriam sido alertados por um assessor do Sindicato dos Metalúrgicos,
Arlindo Furtado, que estava em companhia de Bartolomeu, a parar de panfletar
na porta da Saint Gobain e fossem embora. Como não foram atendidos,
Bartolomeu e Furtado teriam partido para a briga. “Ele (Bartolomeu)
me deu soco e meteu a mão na minha blusa para tentar pegar os
panfletos que estavam dentro da minha roupa. Minha blusa acabou rasgando.
Quem me defendeu foram os funcionários da Saint Gobain que estavam
chegando para trabalhar”, contou Isabel, acrescentando que os
trabalhadores que presenciaram o tumulto teriam ficado indignados com
o comportamento do diretor do Sindicato.
A confusão ficou ainda pior quando Elton tentou apartar a briga.
O militante do Conlutas também teria sido agredido por Bartolomeu
Citelli com um soco na boca e um chute nas costas. Os dois rolaram no
chão e Bartolomeu, segundo relato de Elton, teria ameaçado
de morte os opositores do Sindicato. “Ele disse que se a gente
continuasse a entregar os panfletos, iria dar um sumiço na gente.
Eu entendi que isso foi uma ameaça”, discorreu Elton, acrescentando
que a confusão foi parar na 90ª Delegacia de Polícia
de Barra Mansa, e os dois militantes foram encaminhados para o IML de
Volta Redonda para fazer exame de corpo delito.
Segundo Isabel, durante a confusão Bartolomeu só recobrou
o juízo quando alguém do Sindicato dos Metalúrgicos
– certamente informado da briga – teria ligado para o celular
dele. “Ele pegou os panfletos, jogou tudo para o alto e foi embora.
Saiu dizendo que iria dar um jeito na gente”, disse Isabel. De
acordo com ela, o tumulto na porta da Saint Gobain não foi o
único protagonizado por Bartolomeu Citelli.
É que, segundo ela, minutos antes o diretor do Sindicato já
tinha se estranhado com outros dois militantes do Conlutas, em frente
a porta principal da Siderúrgica Barra Mansa (SBM), na Boa Sorte.
Lá, ele teria pegado um pacote de panfletos que foi posto no
chão pelos militantes do Conlutas e jogado no lixo. Tem mais.
Teria empurrado e golpeado com tapas os dois opositores e dito que ‘sumiria
com eles’.
Procurado pelo aQui ontem, sexta, 26, Bartolomeu Citelli
não foi encontrado no Sindicato dos Metalúrgicos para
comentar o caso. Até o fechamento dessa edição,
a assessoria de Comunicação do órgão também
não tinha se pronunciado a respeito.
Histórico
A trajetória de desentendimentos entre os militantes do Conlutas
e os do Sindicato dos Metalúrgicos é conturbada. Desde
os tempos em que Luiz Rodrigues de Oliveira, o Luizinho, presidia o
Sindicato, a oposição metalúrgica já incomodava.
Porém, segundo relato dos próprios representantes do Conlutas
ao aQui, a democracia operária sempre foi respeitada pelos presidentes
que antecederam Renato Soares. “Todo mundo sabe que nós
fazemos oposição e que não concordamos com a maneira
com que o Sindicato conduz as negociações com as empresas,
na defesa dos direitos dos trabalhadores. Mas apesar de todos os desentendimentos
que já tivemos com o Luizinho e depois com o Perrut (Carlos Henrique
Perrut, grifo nosso) sempre existiu respeito. Com a atual diretoria
é diferente. Não existe democracia, muito menos respeito”,
reclamou Isabel Fraga de Paula.
A representante do Conlutas disse que o movimento sempre acompanhou
as negociações salariais das empresas de base do Sindicato
dos Metalúrgicos e que quando Renato Soares assumiu o órgão,
a sua gestão se voltou apenas para as grandes empresas da região,
como as montadoras de Porto Real e Resende, e a própria CSN.
Ou seja, os trabalhadores da Saint Gobain e da SBM foram relegados a
um segundo plano. “Nós só fomos dar apoio aos operários
dessas empresas. Panfletamos sim, mas nem no nosso panfleto nós
faltamos com respeito a ninguém. Somos contra a criminalização
do movimento sindical. É por isso que não dá para
aceitar esse tipo de coisa”, desabafou.
O panfleto que gerou a discórdia entre os militantes do Conlutas
e o diretor do Sindicato dos Metalúrgicos traz no título
uma frase indicando que somente com a realização de uma
greve seria possível “arrancar” um aumento salarial.
O texto critica a proposta de renovação salarial oferecida
pelas empresas Saint Gobain e SBM, de conceder apenas o reajuste baseado
no INPC pleno (5,73%). No início da semana, trabalhadores da
SBM aprovaram - por 771 votos a favor e 419 contra – uma paralisação
de 48 horas na fábrica. Antes, porém, que a greve fosse
deflagrada, a direção da empresa pediu a retomada das
negociações e marcou uma nova reunião com o Sindicato
para a próxima terça, 30, às 10 horas.
Já a Saint Gobain, que também corria o risco de enfrentar
uma paralisação por parte dos seus funcionários,
apresentou uma nova proposta para o acordo coletivo de 2009. Desta vez,
ofereceu o INPC pleno mais um abono de R$ 750,00. A oferta será
discutida pelo Sindicato dos Metalúrgicos e diretores da Saint
Gobain na terça, 30, e em seguida levada a apreciação
dos trabalhadores. Para o Conlutas, a proposta não é boa.
“Nós queremos ganhos reais”, resumiram. Mas que tenham
cuidado ao defender tal tese, diria Bartolomeu.
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