CIDADE: Vítima do vôo 477 é enterrada em Barra Mansa
Luto

Enterro reuniu mais de 3 mil pessoas

Quando a fragata “Constituição” da Marinha Brasileira retirou do mar o primeiro corpo do voo 447 da Air France, no dia 6 de junho - cinco dias depois do avião desaparecer no ar - a família do engenheiro Luiz Cláudio Monlevad não imaginava que se tratava de alguém tão próximo e querido. Mas era. O corpo de Luca, como era conhecido, foi o primeiro a ser resgatado do mar, identificado e liberado pela equipe de médicos legistas do IML de Recife. Na terça, 23, ele chegou embalsamado ao Cemitério Municipal de Barra Mansa, onde foi sepultado. A família, enlutada, não quis conversar com a imprensa. “Deixa ele descansar em paz”, pediu o irmão, o ortopedista João Carlos Monlevad.

Luiz Cláudio Monlevad estava no voo da Airbus A-330 da Air France, que saiu às 19 horas do Rio com 228 pessoas a bordo na noite de domingo, 31 de maio, com destino ao aeroporto Charles de Gaulle, em Paris, onde deveria chegar às 6h15min do dia 1º de junho. Porém, três horas depois, a aeronave desapareceu do controle dos radares quando sobrevoava o Oceano Atlântico, distante quase 500 km do arquipélago de Fernando de Noronha, em Pernambuco. O engenheiro viajava para a cidade francesa de Nancy, onde participaria de uma reunião de trabalho. Luiz Cláudio era gerente de qualidade da Saint Gobain Canalização há 18 anos e costumava ir à França pelo menos duas vezes ao ano.

Para os familiares, a localização do corpo do engenheiro, numa região de difícil acesso e considerada a mais profunda do oceano, foi o fim de um drama que durou 19 dias. No sábado, 20, a Polícia Federal de Pernambuco entrou em contato com a família de Luiz Cláudio para avisar sobre o resgate e a identificação do corpo. “Viajei para o Recife para providenciar a liberação”, contou o secretário de Saúde de Barra Mansa, Mário Sérgio Fróes de Andrade, concunhado do engenheiro. “Eu conversei com sete peritos para saber como se deu o reconhecimento do Luca. Eles disseram que os recursos utilizados foram através da identificação da arcada dentária, da impressão digital e de outros 12 testes feitos pelo IML de Pernambuco”, contou o secretário durante o velório de Luiz Cláudio, no início da tarde de terça, 23.

Muito abalada, a viúva de Luca, Mônica Paiva Carvalho Monlevad, não quis conversar com a imprensa. Os filhos, Gabriel, 19, e Pedro Henrique, 17, também optaram pelo silêncio. Na página de Pedro Henrique, num site de relacionamento da internet, amigos, parentes e até pessoas desconhecidas postaram mensagens de solidariedade à família. Luiz Cláudio, segundo os amigos, era uma pessoa querida. “O Luca era um cara fantástico. Um grande especialista em qualidade. Fizemos muitos projetos juntos. Nos aproximamos mais quando nossos filhos começaram a namorar”, contou o arquiteto Raul Araújo, que trabalhou com o engenheiro na Saint Gobain. Raul era uma das mais de três mil pessoas que passaram pelo cemitério de Barra Mansa na última terça.

O corpo de Luca foi identificado no sábado, 20, em Recife, embalsamado e trazido para o Rio num voo comercial da companhia aérea Gol, que deixou o Aeroporto Internacional dos Guararapes por volta das 6h20min de terça, 23. Por volta das 10 horas, a aeronave pousou no Aeroporto Tom Jobim, e chegou em Barra Mansa às 13 horas. O engenheiro foi velado na capela mortuária até às 16 horas, quando foi enterrado no mausoléu de n.º 45.690 de propriedade da família Monlevad. O caixão permaneceu lacrado durante todo o velório, a pedido do IML de Pernambuco.

De acordo com Mário Sérgio Fróes, a perícia feita no corpo do engenheiro revelou que ele morreu em consequência de politraumatismo, ou seja, lesões provocadas por forte impacto. “A causa da morte foi definida pelos legistas do IML de Pernambuco. Consta em laudo necroscópico, certidão e atestado de óbito”, disse o concunhado, acrescentando que os laudos foram atestados pelo médico José Calvo, chefe da equipe responsável pelo embalsamento das vítimas do voo 447.

Indenização
Luiz Cláudio Alves de Monlevad tinha 48 anos e era casado com a fisioterapeuta Mônica Paiva Carvalho Monlevad. O casal tinha dois filhos jovens: o mais velho, Gabriel Carvalho Monlevad, 19, é estudante do 1º período de Engenharia na PUC do Rio, e o caçula, Pedro Henrique Carvalho Monlevad, 16, é estudante do 3º ano do Ensino Médio. No final do ano passado, Luca conseguiu terminar a construção de sua casa, no bairro Santa Clara, cujo projeto ele vinha trabalhando há pelo menos 15 anos. “A casa ficou linda, do jeito que ele sempre sonhou. Ele estava começando a desfrutar do imóvel”, contou ao aQui, o companheiro de trabalho, Raul Araújo.

Em 1991, Luiz Cláudio ingressou na antiga Companhia Siderúrgica Bárbara, atual Saint Gobain Canalização, em Barra Mansa. Era responsável pelo controle de qualidade dos produtos fabricados na unidade, como ferro fundido e tubos. De acordo com o diretor de Relações Públicas da Saint Gobain, Gustavo Siqueira, a empresa considerou a morte de Luiz Cláudio um acidente de trabalho e por conta disso, a família será indenizada. “Estamos dando apoio psicológico aos familiares”, disse.

Segundo cálculos da Guarda Municipal de Barra Mansa, mais de três mil pessoas passaram pelo Cemitério Municipal para se despedir do engenheiro. Dentre elas o prefeito Zé Renato e o ex-prefeito Roosevelt Brasil, além de vereadores, empresários, médicos, advogados, juízes e amigos da família. Fiéis da comunidade católica Canção Nova, da qual Mônica Monlevad participa, lotaram um ônibus e vieram oferecer apoio e conforto à viúva. Luiz Cláudio de Monlevad foi o primeiro, dos 50 corpos que até a última quarta, 24, havia sido resgatado do mar. Também foi a primeira vítima a ser enterrada. A notícia de seu sepultamento foi comentada nos principais jornais do Brasil, inclusive no site do jornal francês Le Monde.


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