MÚSICA: Banda Amplexos, de Volta Redonda, se destaca pela originalidade
Independentes e alternativos

Amplexos: contra ‘modinha’, a favor da qualidade

Acompanhar as novidades do mercado musical brasileiro não é tarefa das mais fáceis. Profissionais que atuam na área frequentemente têm que separar o joio do trigo e descobrir o que vale a pena ou não ser divulgado. Tudo bem que gosto não se discute, mas a banda Amplexos, de Volta Redonda, é uma das poucas que conseguem agradar aos ouvidos mais delicados com uma inusitada mistura de estilos que vão do rock sessentista dos Beatles às batidas brasileiríssimas do Nação Zumbi e Mombojó – bandas consagradas que exercem influência sobre o trabalho do grupo.

Por essas e outras há quem goste – e muito – do som que eles fazem desde 2006. Não é difícil entender o porquê. Raridade na cena musical do Sul Fluminense, a Amplexos possui composições próprias e parece evitar a todo custo repetir a fórmula batida das bandas ‘covers’. Significa dizer que dificilmente eles serão vistos na noite apresentando músicas que não são suas. Pelo contrário. Esbanjando originalidade, mostrarão ao espectador exigente que voltarredondenses sabem e têm criatividade de sobra para compor, tocar, cantar e, claro, encantar.

Em 2008, os cariocas tiveram a oportunidade de conhecer o trabalho da banda da cidade do aço através do festival “B de Banda”, promovido pelo Jornal do Brasil, no Rio de Janeiro. Na ocasião, a Amplexos, formada pelos músicos Eduardo Valiante (voz, craviola, violão e guitarra); Leandro Vilela (guitarra); Leandro Tolentino (percussão); Flavio Polito (baixo); Helton Ventura (bateria) e Martché (teclados, escaleta e programações) – todos de Volta Redonda – foi selecionada entre outras 300 bandas brasileiras para concorrer às semifinais. No dia da apresentação, a Amplexos venceu no voto popular, mas acabou ficando em segundo lugar na votação do juri, formada por profissionais especializados.

Nada, porém, que tenha tirado o ânimo dos seis meninos da cidade do aço. De acordo com Eduardo Valiante, o ‘Guga’, participar de festivais como o “B de Banda” é importante para tornar o grupo conhecido. “Esse formato de competição entre bandas não nos agrada muito. Mas é sempre importante participar, pois conseguimos muitas coisas legais a partir disso”, explica o músico, dando mostras de que a banda, ao contrário de outras do gênero, não quer saber de sucesso fácil. Tanto que mantém o discurso engajado de que música boa não é descartável, do tipo que faz um sucesso estrondoso e gera milhões de reais, independente de ter qualidade ou não. Por isso, afirma, não enxerga vantagem em assinar contrato com grandes gravadoras.

“Pra nós não seria tão interessante um contrato com uma grande gravadora – exceto pela distribuição (de CDs) – e nem para elas”, explica Guga, garantindo que o trabalho da Amplexos já foi apresentado a altos executivos da indústria fonográfica brasileira. “Todos reconhecem o valor, mas estão muito mais preocupados com lucros a curto prazo, que vem das músicas descartáveis e de artistas cuidadosamente fabricados de acordo com o público, também cuidadosamente ‘fabricado’”, analisa o músico, acrescentando que algumas gravadoras menores já demonstraram interesse e fizeram contato com a banda. “Mas, por enquanto, estamos só na conversa”, despista.

Quebra-cabeça
Ao falar sobre o estilo musical da banda, Guga não faz rodeios. Diz que a Amplexos é uma banda de rock do Brasil, mas com algumas características bem peculiares. “Crescemos escutando música brasileira e é natural que algumas de nossas influências não sejam diretamente ligadas ao rock”, justifica o músico. Para ele, um dos fatores positivos do grupo é o fato de ele ser composto por ‘seis cabeças’ extremamente diferentes. “São gostos musicais que se complementam. Um está sempre apresentando coisas novas para o outro e a gente coloca tudo o que gosta na nossa música, de forma natural”, define.

Guga revela ainda que é ele o responsável pela composição de letras e melodias, mas, no final das contas, todo mundo acaba dando palpite. Coisa que segundo Guga contribui para o bom entrosamento da equipe. “Na hora de fazer o arranjo das canções, baixista dá palpite na bateria, guitarrista inventa solo de percussão... é um quebra-cabeça interessante”, comenta. Outra preocupação da banda, de acordo com o músico, é despertar algum tipo de reflexão em quem ouve as músicas da Amplexos.

Inspiração para isso, garante, não falta. “A inspiração vem de muitas coisas. Às vezes ela vem de alguma outra música que eu escuto, de alguma lembrança, de algum tema que aparece na cabeça e muitas vezes ela aparece a partir de coisas que vejo - cores, filmes, livros... Sempre brinco dizendo que minhas letras só tem um tema: a relação do homem com ele mesmo, sua personalidade”, filosofa Guga. Mas ele vai além. E diz que as letras falam muito sobre o amor em suas mais diversas formas. “A primeira música do nosso disco, ‘Eterno Retorno’ (ver box), por exemplo, fala do amor de pai e filho”, conta.

Guga salienta, contudo, que não basta apenas ter vontade de fazer música. É preciso dedicação. “Alguns de nós tivemos lições de teoria musical, harmonia e essas coisas que se aprendem em escolas de música. Mas o que usamos na banda vai além dessas lições. Eu diria que todos nós estudamos música o tempo todo: seja escutando, pesquisando ou tocando mesmo”, diz ele, crendo que a prática constante, aliada a uma certa ‘loucura’ é fundamental para fazer músicas interessantes. “Não estou dizendo que é impossível ser técnico – e teórico – e criativo ao mesmo tempo, mas estar livre das amarras da ‘matemática’ musical é debruçar-se sobre a música de uma forma emocional, passional e, muitas vezes, experimental”, defende.

Conteúdo livre
Prova de que a Amplexos não é mesmo uma banda comum é que eles disponibilizaram na internet seu primeiro CD. Qualquer pessoa interessada em conhecer o trabalho deles pode fazer um download gratuito do material. Parece loucura? Não é. De acordo com Guga, a internet é uma ferramenta fundamental para a divulgação e sobrevivência de qualquer banda independente como a Amplexos. “A gente espera poder sempre disponibilizar as nossas músicas gratuitamente para download, pois é uma forma de fazer com que pessoas de todos os lugares do Brasil e do mundo tenham acesso à nossa música. Para isso, fizemos o site funcionando como um disco, virtual”, diz ele que, buscando valorizar os profissionais da região, escolheu a designer voltarredondense Anna Paula Antunes para fazer o projeto gráfico do disco.

O fato de a Amplexos expor suas músicas para downloads gratuitos não significa que ela seja a favor da pirataria. Ao abordar o assunto, pra lá de espinhoso, Guga lança mão da cautela e afirma que, em sua opinião, a pirataria é fruto de muitos erros. “Erros dos artistas, dos governos e das gravadoras, que continuam errando. O CD é caro demais para os nossos padrões, a tecnologia evoluiu, os artistas deixaram as rédeas das suas carreiras nas mãos de empresários preocupados com lucros apenas, e a indústria acabou virando isso que é hoje”, critica o músico. Para os fãs da banda, porém, ele tem uma boa notícia: o primeiro disco da Amplexos chegará ao mercado pelo preço de R$ 5,00. Apesar disso, Guga jura de pés juntos que não vai se chatear se algum dia, ao andar pelas ruas da cidade do aço, encontrar um CD pirateado de sua banda sendo vendido. “Vou achar muito legal, de verdade”, garante.

Mas essa afirmação, que alguns podem considerar ‘polêmica’, tem um motivo. A Amplexos é uma banda independente que recebeu investimentos de seus próprios integrantes. Ou seja, o dinheiro para a compra de equipamentos e gravação do disco saiu do bolso deles. Logo, não há compromisso contratual ou financeiro com ninguém. “Não temos empresário, assessor de imprensa, roadie, produtor. Somos independentes porque essa é a nossa realidade, hoje. Se algum dia tivermos a oportunidade e a vontade de nos juntarmos com pessoas ou empresas para fazer a coisa funcionar melhor, faremos com toda a certeza. Por enquanto, tem dado certo dessa forma, independente”, completa Guga.

Valorização
Para Guga, escolhido como ‘porta-voz’ da banda para conceder entrevista ao aQui, é uma experiência muito gratificante poder tocar músicas próprias – e não covers – em casas noturnas de Volta Redonda e região. “O reconhecimento é verdadeiro, é real. Quando tocamos uma música nossa e o público canta, é porque ele se identifica de alguma forma com aquilo que a gente fez, com os nossos sentimentos, e não com ‘aquela música que toca na rádio’”, relata o músico, afirmando que as dificuldades de ser uma banda independente no Sul Fluminense não são lá tão grandes. “Com jeitinho nós encontramos nosso público, nossas ‘casas’, e isso só tende a crescer”, aposta.

Embora a Amplexos esteja se apresentando em casas noturnas do Rio de Janeiro, onde há mais pessoas interessadas em bandas alternativas, Guga afirma que é em Volta Redonda que se encontra o público mais fiel do grupo. “Nós sabemos muito bem o quanto eles valorizam o nosso trabalho”, conta, lamentando apenas que outras bandas regionais não estejam recebendo a mesma atenção. “Há muita coisa boa não sendo valorizada. Variäntz, Os Copos, Ricto Máfia, Zé Oito, Iguanas, Miami Bros., Mc El Niño, as várias bandas do pessoal do ECFA (Espaço Cultural Francisco de Assis França) - pra citar só uma parte da galera”, dispara.

De acordo com ele, um dos fatores responsáveis pela falta de valorização do trabalho autoral do Sul Fluminense é a falta de investimento dos governos municipais em produção cultural. “Mas há também a falta de esclarecimento de parte da população mesmo, que se contenta com muito pouco e tem medo do novo, de arriscar. É o mesmo caso das gravadoras, da pirataria. As bandas estão aí, coisas interessantes estão acontecendo a cada minuto aqui na região, é só buscá-las”, diz Guga, dando o seu recado.

Segundo ele, a agenda da Amplexos está cheia e em constante atualização. Portanto, diz, quem quiser conhecer o trabalho da banda e acompanhar a agenda de shows dos seis meninos da cidade do aço, pode acessar o site www.myspace.com/amplexos. Ah, enquanto o CD da Amplexos não chega às boas lojas do ramo, é possível fazer o download gratuito dele através do site www.amplexos.com.

Eterno Retorno - Banda Amplexos
Composição: Guga

Será que já morreu?
Desapareceu e não voltou
Se enfeitiçou com alguma cor
Pra onde levou o meu amor?

Eu já saí, meu bem
Já procurei, meu bem
Por algum lugar em que ela poderia estar

Não sei mais quanto tempo faz
Nem sei se já passou demais
Sua voz já está sumindo da minha memória
E agora? E agora?

E agora...

Eu vou sair, meu bem (mais uma vez)
Vou procurar, meu bem (mais uma vez)
Quem sabe ela não está naquele lugar
A me esperar

© Jornal aQui. Todos os direitos reservados. Este material não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização.